Dada a velocidade da internet, os 15 minutos de fama originalmente previstos por Andy Warhol acabam se tornando cinco. Ou algumas vezes estes minutos eternos enquanto duram se perpetuam por mais tempo, dependendo do impacto causado pelo ser/coisa que consegue alcançar o patamar de estrela da Web.Vide o caso de Susan Boyle, a cantora inglesa até bem pouco tempo desconhecida e que agora é propriedade do planeta simplesmente porque o vídeo de sua apresentação num programa de TV britânico atravessou fronteiras e fez história.
O caso Susan Boyle talvez não fosse possível antes do surgimento do YouTube, serviço de publicação e compartilhamento de vídeos do Google que já provou, centenas de vezes, ser capaz de capturar a atenção de milhões de usuários e alçar ao posto de celebridade do “mundo físico” qualquer um que caia nas graças dos internautas ávidos por novidades. Antes mesmo do surgimento do popular portal de vídeos já existiam as tais celebridades instantâneas, assim como histórias que varreram a rede em questão de dias, horas, minutos. E, agora, segundos.
São os chamados “Memes da Internet”, novidades que se alastram como pólvora pela rede mundial de computadores e acabam gerando produtos como...celebridades instantâneas! O ícone deste movimento é um jovem de 21 anos, Christopher Poole, criador do site 4chan.org. O que isso tem a ver conosco? Muita coisa. Foi de um fórum criado por ele que surgiu a maior parte dos tais “memes”, ou seja, os tais modismos virtuais. Poole criou o fórum quando tinha 15 anos de idade e seu trabalho causou tanto impacto que, hoje, seu site recebe nada menos que 13 milhões de acessos diários. O sucesso é tão louco que o rapaz foi eleito este ano, pela Revista “Time”, a pessoa mais influente do planeta.
Parece loucura, mas o fato de ser capaz de criar celebridades do nada e gerar promissores “virais” na Web garantiu a Poole o prêmio de pessoa mais influente do mundo. Título que, diga-se de passagem, poderia ter sido concedido ao novo presidente dos EUA, Barack Obama (que teve de se contentar com o Prêmio Nobel da Paz 2009), ao atleta mais importante do Planeta, ao Papa, ou a qualquer outro ser humano capaz de promover revoluções. Pois o que a “Time” sacou foi que uma revolução foi arquitetada e posta em prática por Poole e sua gangue de “colecionadores de Memes”.
O tal “título” concedido pela Revista Time só veio comprovar aquilo que todos nós já estamos acostumados a reconhecer: quando algo ganha o status de “Meme”, o impacto em toda a rede é imediato. E qualquer pessoa, acessando a Web de qualquer lugar, acaba conhecendo aquele produto/pessoa ao mesmo tempo. Assim, pode-se facilmente montar uma equação que reúna redes instantâneas como o Twitter - capaz de noticiar qualquer coisa antes dos veículos tradicionais de comunicação – e outras redes sociais como YouTube, Facebook, Orkut, Flick, etc, e tem-se a certeza de que o tempo dos Memes está apenas começando. O que isso significa? Que muitas Susan Boyle podem vir por aí.
Há outros Memes famosos. Um deles, recente, teve o Brasil como “patrocinador”. Tudo começou quando a nova novela de Manoel Carlos, “Viver a vida”, estreou na TV Globo, em horário nobre. Para variar, o ator José Mayer interpreta um galã e, claro, fica com a mocinha e, provavelmente, com a amiga da mocinha, a irmã, a vizinha e qualquer outra que porventura cruze seu caminho.
Inspirado num movimento criado em torno da figura do ator Chuck Norris, conhecido por filmes violentos e por papéis de homens poderosos que conseguem bater em todo mundo ao mesmo tempo, Norris se tornou um grande Meme. Talvez um dos maiores de todos os tempos, através da criação do “Chuck Norris Facts”, coleção de teorias sobre ele que apregoavam, dentre outras “bizarrices”, que “quando os astronautas pisaram na Lua pela primeira vez, encontraram Chuck Norris com cara de poucos amigos. Passaram um rádio para a base dizendo: -Houston, we have a problem”.
Pois bem. Tal grupo de brasileiros, tendo Chuck Norris como referência, criou, no Twitter, o movimento #josemayerfacts. E milhares de brasileiros começaram a postar brincadeiras a respeito da sexualidade do galã brasileiro. O movimento foi tão grande, ou seja, tantas pessoas escreveram tanta coisa sobre José Mayer no Twitter, durante um dia inteiro, que ele chegou ao topo da “Trending Topics”, cobiçada lista de assuntos mais comentados no Twitter no planeta!
A história cresceu tanto que gerou interesse da mídia internacional. Esta correu atrás de informações sobre o ator, tentando entender como uma pessoa pôde ter virado tema de tantos posts em um só dia, advindos de todos os pontos do Brasil.
A questão é que tanto o YouTube quanto o Twitter são espaços mais que perfeitos para a criação e encubação de novos Memes. Principalmente porque possuem uma incrível capilaridade, têm milhões de adeptos loucos por novidades e uma capacidade de mobilização que às vezes foge do racional.
Outros Memes mais antigos? Quem não se lembra do vídeo maluco com a entrevista de Tom Cruise ao programa de Oprah Winfrey, quando, doido de amor, o galã de Hollywood subiu no sofá para professar sua paixão por Katie Holmes? Meme na certa! A mesma coisa se deu com uma foto do ex-presidente americano George W.Bush segurando um aparelho de telefone do lado contrário. Junto, a legenda “Você está fazendo algo errado”.
Outro Meme histórico, também protagonizado pelo controverso ex-presidente: a sapatada que ele levou de um jornalista iraquiano em 2008. O vídeo ficou famoso, percorreu a internet e transformou o jornalista em herói nacional. E mundial.
Além do caso José Mayer, o Brasil já produziu outro Meme típico: durante o show do U2 em São Paulo, em 2006, uma fã conseguiu subir ao palco e dançar coladinha a Bono Vox. Seu nome? Katilce! Depois do show, a moça virou celebridade, seu nome pipocou na internet, ela deu entrevistas na televisão, o vídeo circulou pela Web e mais um Meme estava criado, tendo espaço reservado eternamente na lista de “virais espontâneos” da internet brasileira.
Quem quiser conhecer todos os Memes já produzidos na internet mundial, vale a pena dar uma passadinha no endereço http://migre.me/94sa. Divirtam-se e até o próximo Meme!
Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.