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Geração álbum digital: sumiu o papel!

Geração álbum digital: sumiu o papel!  - Coluna Elis Monteiro
Dia desses, tentei reunir as fotos de quando eu era bebê. Tudo em papel, claro, muitas já com a imagem esmaecida pelo tempo — e olha que nem é tanto tempo assim. Mas tudo lá, guardadinho, já residindo em álbuns montados com carinho pela minha mãe. São registros da infância que permanecem conosco a vida inteira, sendo repassados de geração para geração. Quem não guarda as próprias imagens como relíquias, preciosidades da história de cada um de nós?

Pois acabei me perguntando sobre o caminho que os nossos filhos e nossos netos estavam tomando: como eles terão acesso a suas imagens pessoais e, melhor, às imagens de nós, antepassados tão velhos? Será que eles guardarão as imagens impressas ou todas serão virtuais? Será que elas existirão apenas em frios álbuns digitais, disponíveis para todo mundo, no ciberespaço?

É importante fazer este questionamento agora, num momento em que nós estamos preparando a forma como nossos descendentes irão se relacionar com suas histórias. E a questão é que já estamos modificando essa história, sem sequer percebermos. Poucos de nós têm a disciplina de capturar as imagens com nossas câmeras digitais de muitos megapixels e passá-las para o papel, fazer back-up, tirá-las do mundo virtual e transportá-las para a forma mais básica de registro humano.

Há pouco mais de um ano, fiz uma reportagem sobre os “pixel babies”, a nova geração de bebês que, em vez de álbum de papel, ganhou scrapbooks digitais, colagens virtuais montadas pelas mães e/ou álbuns gigantescos, todos salvos no disco rígido (HD) dos computadores ou em algum tipo de memória flash (pen drives, CD, DVD e por aí vai).

Agora, responda rápido: quantas vezes, no passado (não muito distante, vale dizer), você visitava seus amigos e acabava sendo vítima daqueles álbuns intermináveis de papel, dotados de gracinhas mil dos bebês? E agora, quantas vezes isso acontece, com que freqüência? O filho do parente nasceu? Dispara-se emails para todo mundo, com arquivos em anexo. Em alguns casos, nem isso: coloca-se as fotos em um álbum virtual como o Picasa ou até mesmo no Orkut e as visitas passam a ser exclusivamente virtuais. Em casos mais graves ainda, nem isso: a foto no álbum da maternidade vai ser o único registro público do rebento, até que este ganhe um blog ou um fotolog.

É um pouco solitário, mas muito mais prático, convenhamos. Mesmo assim, não garante que os rebentos de hoje, que serão os adultos de amanhã, terão acesso a essas preciosidades. A questão é que a foto no papel, além de ter um forte apelo emocional, nos ligando à nossa infância que não volta mais, ainda é a forma mais segura de manter os arquivos. Parece loucura afirmar isso em plena era da revolução digital, mas é fato. Arquivos digitais se perdem, discos rígidos de computadores se apagam, CDs e DVDs estragam somem, arranham, mas a boa imagem no papel ainda é insubstituível.

No entanto, é difícil (mesmo) achar quem se discipline ao ponto de manter em dias as impressões de seus arquivos digitais. Assim, acaba ficando mais fácil empilhar CDs e DVDs no escritório de casa do que juntar todas as imagens, gravar em CD ou jogar num pen drive e mandar “queimar” tudo em papel em laboratórios especializados.

Mas será que não vale a pena comprar uma impressora fotográfica e fazer tudo isso em casa, sem a necessidade de envolver um laboratório profissional? A resposta é não. O papel ainda é caro, a tinta, mais ainda (mesmo quando a impressora é a laser) e o custo/benefício acaba não dando vantagem alguma à tecnologia. O mercado sabe tanto disso que hoje é muito mais o investimento em laboratórios, que cobram cada vez menos pelas cópias, do que em impressoras de uso pessoal.

E a tendência é a gente gerar cada vez mais imagens digitais, aprofundando muito mais a crise do “imprimo tudo ou guardo em arquivo digital”. Com o crescimento cada vez maior do mercado de câmeras digitais, a tendência é o mercado de armazenamento evoluir da mesma forma. De acordo com um relatório publicado recentemente pela consultoria IDC, denominado “Update Worldwide Digital Camera Forecast”, até 2011 o mercado de câmeras digitais deve movimentar nada menos que 138 milhões de unidades.

Até mesmo a consultoria mostrou-se surpresa com este número — a perspectiva anterior era de 123 milhões de unidades. Tem mais: para o IDC, os preços menores e o maior número de ofertas são os grandes responsáveis pelo sucesso deste mercado – a consultoria prevê, para 2011, uma média de US$ 250 por unidade, preço considerado excelente. Ou seja, as câmeras vão sair cada vez mais rápido que pão quente em padaria, nos obrigando a tomar a bendita decisão ou mergulharmos num mar de arquivos digitais que não acabam nunca. Numa geração como a dos pixel babies, este pode ser um problema e tanto.

E para aqueles que preferem guardar as imagens em vez de imprimi-las, como será daqui para a frente? A indústria está trabalhando a todo vapor para deixar todo mundo contente e feliz: só para se ter uma idéia: um DVD pode guardar o equivalente a dez CDs, mas o Blu-Ray, mídia que vai substituir o CD e o DVD, poderá guardar dez vezes mais que o DVD.

Enquanto isso, outra mídia de armazenamento corre por fora: o HD externo é uma boa opção para quem tem um grande volume de dados. Mas exige back-up, outra atividade que os pais (e todos nós) costumamos protelar. A palavra de ordem é organização. Isso sem falar em disciplina. Ideal seria uma cópia em DVD, uma em HD externo e uma em papel, para mostrar à família e aos amigos.

Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.

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