O universo da tecnologia é recheado de novas siglas e a cada dia aparecem tecnologias novas com um vocabulário todo especial. Ficar update é quase impossível, mas pelo menos quem é do ramo se diverte com as variações e com o linguajar específico da área, que na maior parte das vezes é ignorado pelos demais mortais. Mais divertido ainda — pelo menos para quem é obcecado pela área — é quando surgem listas do que vai dar certo daqui para a frente ou do que vai ser tendência irreversível. Quando dominamos o assunto, é um prato cheio para pautas — muitas reportagens especializadas surgem daí. Quando não, eis uma boa oportunidade de aprendizado — e a internet pode ser, aqui, a melhor aliada para quem precisa ficar antenado com o que está rolando no mundo da TI planeta afora.
Uma lista recente, divulgada pela E-Consulting, faz parte da categoria “material para guardar”, pois lista as 7 Hot Techs, ou seja, as sete tecnologias “quentes” que darão o que falar este ano. Neste caso, no complicado mundo corporativo. Desenvolvido pelo TechLab (laboratório de pesquisas e análise de tecnologias) da E-Consulting, o estudo aponta as principais tendências tecnológicas para 2008 que estarão no radar corporativo.
Despontando na frente, vem a User-Oriented Meta Component Application Frameworks, nome comprido que tem uma explicação maior ainda: “frameworks transparentes, auto-integráveis, componentizáveis e implementáveis, delineados sob o prisma do usuário final e que são compostos por tecnologias de diferentes padrões e naturezas, porém com alto grau de interoperabilidade e performance casada”. Segundo a E-Consulting, estes serão os novos sistemas (de gestão, comunicação, transação, etc) do futuro.
A segunda grande tendência é a TI (tecnologia da informação) como Processo. Explicando: primeiro, a tecnologia substituiu processos por softwares de gestão, tais como ERP e CRM. Depois, integrou etapas de diferentes processos e diferentes atores em cadeias eficientes (como SCM, EIS, etc). Agora, a TI reescreve os processos corporativos a partir de sua redefinição via SOA (arquitetura orientada a serviços). A mudança central deste ponto em diante, portanto, será, diz ainda a E-Consulting, passar a desenhar os processos nativamente a partir de TI, uma vez que TI corporativa, cada vez mais, será processo desde sua gênese.
O terceiro ponto é uma sopa de letrinhas “de responsa”. Trata-se da ascensão do CDO (COO + CIO) – Chief Delivery Officer, ou seja, a fusão do COO (Chief Operation Officer) com o CIO (Chief Information Officer). Tentando trocar em miúdos: com a evolução da TI e com o renascimento do papel do CTO, profissional que agora deverá ser o responsável pela infra-estrutura em geral das empresas (segurança, conectividade, hardware, eletricidade, facilidades, máquinas, etc), “o papel do COO e do CIO tenderão a se confundir fortemente, consolidando-se em conduzir processos e entregar a performance esperada pela empresa em seus diversos negócios".
A quarta aposta é mais tangível para os meros mortais: a InterneTI. Segundo o estudo da E-Consulting, a internet vem se tornando o principal celeiro de desenvolvimento das aplicações corporativas, tanto de infra-estrutura quanto de operação. Ainda segundo o estudo, essa tendência será cada vez mais forte, uma vez que convergência, mobilidade, interoperabilidade e segurança vêm tornando este tipo de abordagem mais e mais eficiente e com custos menores. A partir daí, aposta a consultoria, “haverá grande tendência a se construir fora da empresa boa parte dos aplicativos e sistemas corporativos (endossando tendências como TI Serviço, TI Utility, etc), bem como pilotar boa parte da operação de TI da empresa (armazenamento, segurança, etc), endossando tendências como o outsourcing (serviços terceirizados)”.
Ainda nesta mesma aposta, os sistemas corporativos tenderão a ser, em alguns casos, 100% Web-Based (baseados na internet), o que transformará todas as empresas em elos de uma rede integrada maior de sistemas em operação transacionando informações. A isto, dá-se o nome de “multistakeholder integration network”, ou uma teia de agentes econômicos integrados que será a cara do mercado colaborativo/competitivo nos próximos anos.
A quinta tendência mostra uma (r)evolução do próprio usuário de internet, que será conhecido como Consumidor 2.0. Aqui, entram a evolução das redes sociais e das ferramentas 2.0, a convergência total de mídias e os novos modelos colaborativos, que criarão as chamadas “Learning Web Networks”, redes pilotadas pelos tais consumidores 2.0, ou seja, os consumidores geradores de mídia, processo hoje ainda na maternidade, segundo a E-Consulting.
Como será esse novo consumidor? A consultoria aposta que "ele terá uma atuação propositiva, crítica, transformadora e vigilante e acabarão sendo catapultados a se integrar efetivamente às redes colaborativas de desenvolvimento de produtos e serviços das próprias empresas”.
A sexta tendência abusa do neologismo para falar de uma coisa relativamente simples: “Knowledge Components” (ou componentes do conhecimento). Diz a E-Consulting: “da mesma maneira que aplicativos de TI e softwares em geral se transformaram em componentes replicáveis e com forte apelo de usabilidade, o conhecimento em si também será formatado em componentes agregáveis, beneficiáveis e comercializáveis, verdadeiros pacotes de output transacionados de usuário para usuário, agregados em redes interdependentes”.
Por último, o mundo corporativo deve passar a conviver fortemente com mais uma siglinha: a GAI-TI (Gestão de Ativos Intangíveis de TI). Tentando trocar em miúdos: a TI responde por boa parte dos investimentos anuais das empresas, mas “caracteriza-se por ser um investimento cujo resultado, à exceção de modelos de redução de custo por substituição, é de natureza normalmente intangível, já que está ligada a elementos como ganhos de performance, modelo de negócio, conhecimento, inovação, etc”.
A novidade é que, para se balizar a discussão com CFOs, CEOs, conselhos e acionistas (ou seja, com os níveis superiores das corporações), caberá ao CIO (cujo papel é explicado no primeiro tópico) “ser capaz de provar o valor gerado pelos investimentos feitos em TI, principalmente quando o efeito prático perceptível destes investimentos estiverem ligados à perenidade competitiva da empresa (portanto, de médio-longo prazo)”.
O resumo da ópera? Assim como o nosso universo — de usuários residenciais, ou seja, meros mortais dependentes das tecnologias da informação — está em constante mutação e sempre exposto a grandes revoluções, o complicado universo das corporações também está em constante processo de adaptação à chegada das novas tecnologias. Para sobreviver, caberá a cada empresa se adaptar ou continuar à margem da evolução. Para quem vive de lucros e dividendos, adaptar-se é uma questão de sobrevivência. E, assim, as sopas de letrinhas passam a ser vitaminas diárias, necessárias para uma vida longa ou pelo menos uma sobrevida digna.
Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.