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As eleições americanas e a internet

As eleições americanas e a internet  - Coluna Elis Monteiro

Vez ou outra, ouço críticas a respeito da importância que a imprensa brasileira dá às eleições norte americanas. Segundo estes críticos, há muita informação, aqui, sobre o que acontece por lá, na terra do Tio Sam. Pois discordo veementemente. Primeiro porque há espaço de sobra nos jornais e nas revistas para assuntos variados que sejam do interesse de qualquer tipo de público leitor. Segundo, porque estas são, sem sombra de dúvida, as mais interessantes eleições americanas dos últimos tempos. E num pleito que pode significar uma quebra de paradigmas na nação mais poderosa do mundo a internet tem papel fundamental.

Ainda na fase de definição dos nomes dos candidatos republicano e democrata – agora, sabe-se que de um lado estará o democrata Barack Obama e, do outro, o republicano John McCain – a rede mundial de computadores já mostrava todo seu potencial para a definição e apresentação dos oponentes. O próprio Obama incluiu, como uma de suas ferramentas de campanha, um blog onde discute assuntos do interesse do eleitorado, assim como estimula os visitantes a contribuir para a sustentação da campanha – seja sob a forma de multiplicação dos ideais do candidato, que prega a mudança contra a mesmice de sempre (não custa lembrar que McCain é do mesmo partido que o atual presidente americano, George W. Bush), seja sob a forma de contribuição financeira.

E é aqui que entra uma das surpresas destas eleições. Obama, assim como Hillary Clinton, a candidata a candidata democrata derrotada por ele nas prévias, soube seduzir e conquistar o público internauta. Mais: soube motivá-lo a doar somas vultosas para suas campanhas, transformando o perfil do doador e fazendo com que da internet jorrassem milhões de dólares através dos blogs e sites.

Mais do que incentivar o cidadão a doar dinheiro, a internet já tem funcionado como mola propulsora da participação do eleitorado no processo. Nos Estados Unidos, ao contrário do que acontece aqui no Brasil, ninguém é obrigado a votar. Assim, a quantidade de indivíduos que comparecem às urnas é cada vez menor. O fenômeno é ainda mais grave entre a população jovem. Pois a internet acaba servindo como isca para uma população que sequer pensaria em usar a ferramenta cidadã do voto para participar da política e, assim, decidir o destino de seu país.

As estatísticas comprovam que tem dado certo e que Obama, principalmente, acabou se tornando um fenômeno entre os jovens, que resolveram embarcar no lema da mudança geracional – coisa inédita por lá e por aqui também - na esperança de eleger um candidato negro e, caso Hillary Clinton tivesse sido a indicada pelos democratas, levar uma mulher a ocupar o cargo mais importante do planeta.

Infelizmente, no Brasil a política ainda não acordou para o potencial da internet. É claro que não dá para imaginar – ainda – uma campanha realizada com doações de internautas brasileiros, ainda mais sendo os políticos daqui tão desacreditados perante os eleitores. Mas a rede mundial tem um potencial incrível – e ainda pouquíssimo explorado – como hospedeira das discussões que, sim, deveriam existir.

O eleitor brasileiro ainda não acordou para o fato de que precisa conhecer os candidatos a fundo, saber de seu passado e de suas intenções. Aqui, pouquíssimos se importam de verdade em conhecer os projetos daqueles que se propõem a representar o povo.

Os blogs são os primeiros movimentos de fato rumo a uma maior conscientização do eleitor internauta. Em dezenas deles – a maioria, hospedados nos portais de grandes jornais online- as discussões fervem, informações preciosas sobre as biografias dos candidatos aparecem e, melhor, propostas são apresentadas.

Mas os jovens ainda passam longe desse movimento. É uma pena. Às vésperas das eleições municipais, seria interessante que se multiplicassem as formas de debate. Desta forma, aproxima-se o eleitor do candidato, o que pode aumentar a responsabilidade deste último no cumprimento de suas promessas de campanha.

Outra coisa: nos Estados Unidos, os candidatos já tiram partido de ferramentas como o YouTube para a apresentação de sua plataforma de campanha. Não à toa, a rede de televisão CNN promoveu, em conjunto com o Google, dono do YouTube, um ciclo de debates entre os candidatos a candidatos americanos, ainda durante as prévias. Os eleitores puderam mandar perguntas e, melhor, interagir com os candidatos em tempo real, através de salas de chat criadas pelo Google. Os vídeos dos debates ainda estão disponíveis na internet e são uma bela amostra do que pode ser feito aqui – isso, claro, se os partidos políticos e os tribunais regionais eleitorais abrissem os olhos para o potencial da rede e as benesses que ela poderia trazer para o eleitor.

Este, por sua vez, deveria estar mais antenado a respeito daqueles que conquistam seu voto e pesquisar mais sobre cada candidato. Tudo o que é notícia e o que foi noticiado sobre os principais candidatos, nos últimos anos, está disponível online. Não é mais preciso levar gato por lebre – há como saber, sim, se aquele número que você vai apertar na urna merece ser digitado.

Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.

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