A palavra do momento é Avatar. Comecei a pensar nela com mais seriedade dia desses, quando li numa revista de circulação carioca que já há quem chame os famosos “duas caras” de avatares. Ou seja, estes sujeitos apresentam, na sociedade, a "cara real" e, no submundo (seja ele qual for), mostram aquela que, na verdade, não os representa: o avatar. Interessante como as palavras, na internet, vão ganhando conotações diferentes — quem não ouviu falar do “psicopatizar”, que é o hábito de fuxicar os scrapbooks de Orkut? Pois é. O brasileiro adora, adora um neologismo.
O avatar, no entanto, não é palavra nova. Só foi difundida em larga escala agora, que o Second Life virou papo de botequim. Em informática, a palavra significa “a representação gráfica de um utilizador em realidade virtual”. Ou seja, é a cara que um internauta ou jogador de games assume quando resolve se representar — ou a outras pessoas ou coisas — em território cibernético, não necessariamente no ciberespaço.
Os avatares fazem parte do mundo da tecnologia desde que nasceram os jogos eletrônicos. Mas o conceito de avatar permeia diversas outras atividades. Um exemplo bem interessante? Oriunda do sânscrito, a expressão Avataara (que quer dizer “descendente”) no hinduísmo significa “encarnação dos deuses, em forma mortal humana ou animal” ou, trocando em miúdos, “manifestação corporal de um ser imortal”. Podemos, assim, chegar à conclusão de que nossos avatares são não só nossas representações gráficas como nossos descendentes, só que em outro universo. No caso dos usuários do Second Life, os avatares são representações deles mesmos, só que naquele universo paralelo em particular.
Diante da explicação, resolvi partir para uma reflexão: como seria o meu avatar ideal? Será que teria a coragem de me representar, no mundo virtual, da mesma forma como sou no mundo “real”? Ou aceitaria mergulhar de tal forma no mar do universo paralelo que preferisse renascer sob outra forma? Seria eu bonita, escolheria um aspecto feio, para lutar contra os desmandos da estética? Parece um devaneio desvairado, mas a verdade é que a escolha do avatar sempre vai passar por um exercício emocional. Se me aceito exatamente como sou no mundo “real”, porque não me aceitaria do mesmo jeito no Second Life (SL), só para citar o mundo 3D mais famoso?
Resolvi experimentar: fiz um exercício de construção do meu “segundo eu” para que, quando tivesse coragem, pudesse usar esta nova face (e corpo) dentro do SL. Escolhi o estilo - descolado, modernoso, uma “street girl”. Fiquei bem bonita. Mas, no final das contas, cheguei à conclusão de que aquela, definitivamente, não era eu. Nem graficamente eu me pareceria comigo. Não sou descolada, não uso aquelas roupas brilhantes, aquele cabelo espetado. Acabei percebendo que escolhi aquela forma porque, lá no fundinho, talvez gostasse de ser exatamente daquele jeito numa próxima encarnação.
Já que meu avatar acabou se revelando muito mais “transado” do que sou na verdade, decidi começar de novo e fazer um que se parecesse de verdade comigo. E, cá entre nós, não foi nada fácil. Primeiro porque a ferramenta tecnológica não permite; segundo, porque eu seria normal demais e talvez ninguém sequer puxasse assunto comigo dentro do Second Life. Sendo assim, desisti e vou ficar esperando um desenvolvedor me dar de presente um avatar que tenha o meu perfil - um pouco nerd, um pouco sofisticada talvez, mas nunca, de forma nenhuma e em nenhum universo, descolada.
Enquanto fazia o exercício de me recriar, um colega de trabalho me chama na mesa dele para me contar que o irmão acabara de receber uma proposta inusitada: foi convidado, por uma agência, para ser modelo no Second Life. Pessoa extremamente normal no nosso universo, ele foi capaz de criar um avatar tão "pintoso" que acabou esbarrando numa caça-talentos da tal agência de modelos. E recebeu a proposta de “fazer a vida” na internet. Ele topou, claro, e já fez até desfile.
E como era o avatar do rapaz? Musculoso, impecável com sua camiseta Puma, seu tênis da Nike, calça de marca também, cabelo espetado e muitas correntes penduradas no cóis da calça. Ou seja, um ser moderno que em nada lembrava o tímido cidadão do outro lado do monitor. Juntando a minha experiência com a dele, cheguei à conclusão de que os avatares são nada mais nada menos do que nossos segundos “Eus”, que não necessariamente são parecidos conosco porque carregam todas as nossas frustrações e, quiçá, nossos sonhos. Não nascemos perfeitos, modelos, sarados, populares? Nada que um pouco de criatividade e um conhecimento em programação não resolvam. E passamos a viver, do outro lado da tela, uma vida que, talvez, nunca tivéssemos chances de levar aqui, do lado feio e frio da vida.
Uma outra conhecida resolveu ousar ainda mais do que o novo modelo: no SL, ela decidiu ser stripper. Gostou tanto e ganhou tantos linden dollars que acabou se tornando prostituta. Está ganhando uns bons trocados numa das centenas de ilhas já existentes dentro do mundo 3D. Quando a perguntei porque tinha decidido assumir uma personalidade tão, digamos, heterogênea, ela me disse que era para viver, em algum lugar, anonimamente, as fantasias que não podia experimentar aqui na Terra. Está feliz da vida, não só porque está podendo comprar todas as jóias e roupas que desejar dentro do Second Life como, aqui fora, se sente uma mulher mais desejada.
Em ambos os casos, as experiências foram felizes. Tanto a minha amiga quanto o irmão do meu amigo acabaram se “encontrando” em um mundo totalmente diferente do nosso. Construíram seus avatares da forma mais diferente possível do real, agem sob o manto do anonimato e vivem duas vidas - a daqui, cheia de tabus e preconceitos - e a de lá, livre e às escondidas.
Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.