Em 2007, o fundador da Microsoft, Bill Gates, que há anos já tinha largado a presidência da companhia para se dedicar à área de engenharia de software (na verdade, ele passava mais tempo vivendo em função da Fundação Bill e Melinda Gates), anunciou que muito em breve largaria de vez a empresa que criou para se dedicar única e exclusivamente à filantropia, atividade que ele empreende com louvor, diga-se de passagem. Pois logo no começo do ano, ao realizar sua palestra de sempre na Consumer Electronics Show (CES), em Las Vegas, o homem que deu início à era da computação pessoal anunciou que estava se aposentando e se retirando de vez da Microsoft.
Começa, assim, uma nova era para a informática. Dono de um passado controverso, réu de inúmeros processos por conta de práticas monopolistas, Bill Gates — ou Tio Bill, como nós repórteres de informática sempre o chamamos — foi o homem certo na hora certa e fazendo a coisa certa, mesmo que por vezes por vias tortas. São nada menos que 30 anos dedicados à área de tecnologia, muitos dos quais prevendo aquilo que faria sucesso no futuro — e fornecendo armas ao mercado para a chegada cada vez mais rápida deste futuro.
Com nome de batismo William Henry Gates III, o velho Bill nasceu em outubro de 1955. Quanto estudava em Harvard, desenvolveu, ao lado do futuro sócio Paul Allen, um interpretador da linguagem Basic para rodar num dos primeiros computadores pessoais a serem lançados nos Estados Unidos, o modelo Altair 8800. Foi assim que nasceu a Microsoft, empresa de software voltada para a criação de programas capazes de rodar em computadores pessoais, os Personal Computers (PCs). Isso tudo numa época em que a computação doméstica nem existia.
É de Bill Gates o crédito de ter começado a valorizar o software em detrimento do hardware. Quer dizer, até então os geniozinhos (ou nerds, como são mais conhecidos) ocupavam seu tempo estudando a arquitetura interna das máquinas, tentando fazer com que elas processassem melhor — e em menor tempo — e, claro,
fazendo de tudo para que elas ficassem cada vez menores. Gates e Allen foram os primeiros visionários a valorizar o software a ponto de fazerem dele seu ganha-pão. Não poderiam ter feito uma aposta mais acertada.
A hora mais que certa, aqui, foi o lançamento do IBM PC, considerado o primeiro computador pessoal do mercado, em 1981. Foi aí que o então jovem Bill Gates tomou a decisão de procurar uma pequena empresa, a Seatlle Computer, que havia desenvolvido um sistema operacional para rodar no processador da Intel que dava vida ao novo micro. Gates levou consigo uma proposta de compra — pagou US$ 50 mil pelo programa, fez pequenas modificações, personalizou-o e revendeu-o por US$ 80 mil, mas foi inteligente o suficiente para manter a Microsoft como dona da licença do produto. Qual era o tal sistema? Com nome inicial de PC-DOS, ele era nada mais nada menos que o MS-DOS, considerado o precursor do Windows, sistema operacional que 90% da população mundial ainda usa em seus micros.
Daí para se tornar o homem mais rico do mundo não foi bem um pulinho, mas um pulão: em 1995, ele passou a figurar pela primeira vez na lista dos homens mais ricos do mundo, montada pela revista Forbes. Na ocasião, sua fortuna pessoal chegava à casa dos US$ 130 bilhões! Sua posição na lista? Nada menos que o primeiro lugar, onde se manteve por muito tempo — exatamente, até ser desbancado pelo mexicano Carlos Slim, dono do América Móvil, controladora da operadora Claro aqui no Brasil.
Desde o ano 2000, Bill Gates tem se dedicado a causas beneméritas, à frente, junto com a esposa Melinda, da fundação que leva os nomes dos dois. A Fundação é a responsável por projetos no mundo todo ligados à área de saúde (principalmente em estudos sobre a Aids e a cura do câncer), inclusão social e digital, etc. Em 2004, Bill Gates já havia doado US$ 29 bilhões de sua fortuna à Fundação.
É a essa atividade que o homem cujo nome é, até hoje, o mais importante na área da computação pessoal, quer se dedicar daqui para a frente. Ou seja, podem estar chegando ao fim as grandes apresentações de Gates nas feiras de tecnologia mundo afora. São da lavra dele as frases mais marcantes no que diz respeito às previsões do que acontecerá daqui para a frente. Mas é dele também o título de homem de visão que menos apostou na internet como fruto de bons negócios. Ou seja, a Microsoft conseguiu, algumas vezes, perder o bonde da rede mundial, o que fez com que o poderio do Google se expandisse Web afora, fazendo com que a Google e não a Microsoft — como deveria ter sido — se tornasse o grande nome da era da internet.
Mesmo assim, Bill Gates continua merecendo o título de pai da computação pessoal, o Windows continua e deve continuar por muito tempo sendo o sistema operacional mais usado no mundo e a Microsoft, mesmo sem o seu chefe liderando a equipe, deve continuar sendo a mais importante empresa do ramo do software por muitos anos. E como previu o próprio Bill Gates em seu discurso de despedida, estamos entrando numa nova era, a segunda década digital. Segundo ele, os 10 últimos anos foram a primeira década digital, com o desenvolvimento de aparelhos conectados e mais poder à internet. Agora, disse ainda, chegou a nova fase.
— Nada vai nos segurar na segunda década digital, que estará mais focalizada em conectar pessoas e nas necessidades dos usuário — disse Bill Gates, que atualmente soma 52 anos de idade.
Em sua última previsão como “funcionário da Microsoft”, Gates disse que haverá três elementos-chave na nova década digital: o primeiro seriam as “experiências em alta definição” de áudio e vídeo; o segundo é a “conexão dos aparelhos eletrônicos por serviços”; o terceiro elemento, segundo ele o mais subestimado, serão as novas formas de interação com computadores, telefones e outros aparelhos eletrônicos.
Quem viver, verá. Mesmo sem "Tio Bill" à frente da gigante Microsoft. Apesar dos pesares — e das práticas por vezes “tortuosas”, digamos - devemos muito a ele.
Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.