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Classe C domina a Internet

Apesar do crescimento do mercado brasileiro de computadores – nada menos que 10,7 milhões de micros foram vendidos no país em 2007, o que nos elevou ao posto de quinto maior mercado de PCs do mundo - ainda há quem insista em chamar a internet brasileira de elitizada. Convenhamos que até muitíssimo pouco tempo atrás era isso mesmo – a rede, aqui no Brasil, era privilégio de poucos – os que podiam pagar e, por um acaso, morassem nos grandes centros urbanos. Não era de se estranhar, ainda mais em se tratando de um país com carga alta de impostos, principalmente incidindo nos serviços de telecomunicações, o que que acaba resvalando no preço do acesso à internet. Em telefonia, pagamos nada menos que 40% (em alguns estados, um pouco mais) de imposto.
Com o incentivo do governo à produção e venda de PCs de menor custo e com os programas de inclusão digital começando a acontecer país afora, uma nova classe de usuários passou a poder sonhar com as benesses do mundo digital, e o que antes estava restrito às classes sociais A e B, agora chega à classe C com folga e começa a aparecer com maior freqüência nas antes esquecidas classes D e E.
A classe C é, com certeza, a maior beneficiada com a expansão do mercado nacional e, por isso, acabou tornando-se o sonho de consumo de empresas do mundo pontocom, interessadas em vender principalmente pela internet.
Esse interesse repentino, no entanto, não é à toa. Em 2007, o total de internautas no Brasil avançou 21%, chegando a 40 milhões. Este crescimento foi impulsionado pelas vendas de computadores, que somaram 10,5 milhões e ultrapassaram, pela primeira vez, o total de aparelhos de televisão vendidos no país. Para 2008, o número de navegantes deve crescer ainda mais - a expectativa da indústria é de um crescimento de 15%. Dessa forma, poderemos ter, no final de 2008, nada menos que 45 milhões de usuários de internet no país. Que fique claro: esse crescimento não foi registrado apenas entre o público das classes mais privilegiadas econômica e socialmente: os resultados de pesquisas realizadas comprovaram que 37% dos internautas brasileiros que acessaram a rede durante o ano de 2007 pertencem à classe C. Outros 50% compõem as classes A e B, e 13% são das classes D e E.
Os dados são do Interactive Advertising Bureau (IAB), que os divulgou com o intuito de mostrar que ainda há um mito digital que precisa ser ultrapassado: o de que a internet no Brasil é elitizada e acessada apenas pelas classes A e B. Ainda segundo o IAB, a expectativa é de que a classe C represente 18 milhões de internautas até o final de 2008, ou 40% do total dos 45 milhões esperados.
Por que todo esse sucesso? Porque a internet já mostrou seu potencial como meio de comunicação de massa, tal qual a televisão. Assim, também não é de se espantar o interesse cada vez mais visível dos veículos de comunicação pela rede mundial. Por um acaso, a internet foi a mídia que mais cresceu no ano de 2007. Para este ano, a IAB Brasil projeta uma expansão de 35%.
Os números são surpreendentes principalmente quando consideramos que as empresas responsáveis pela expansão dos serviços de telecomunicações no país ainda dão muito pouco valor à massa, ou seja, a maioria das operadoras continua focando seus esforços na parte da população que pode “bancar” serviços caros. E apesar dos esforços do governo para popularizar os produtos de acesso à internet, cabe a estas empresas levar a infra-estrutura até a ponta menos favorecida. Hoje, há mais clientes querendo contratar serviços de banda larga do que a capacidade das operadoras de suprirem a demanda. Por essas e por outras é que a classe C não avançou ainda mais nas pesquisas de uso da internet – simplesmente porque, mesmo se puder pagar por um serviço de alta velocidade, pode ser que em seu local de residência a conexão ainda não seja possível. Assim, um outro mercado continua explodindo: o de lan houses, pontos públicos de acesso à internet que têm se multiplicado país afora.
A esperança da conexão doméstica pode estar na concorrência entre as operadoras – fixas com fixas, móveis com móveis e entre empresas prestadoras de acesso DSL, via rádio e cable modem. Mas o grande momento pode estar para chegar com a oferta de serviços pertencentes à terceira geração de telefonia celular (3G), a banda larga móvel, desafiando as operadoras de telefonia fixa a criarem novas formas de expansão. Ou passam a correr o risco de perder o cliente, seja ele das classes A, B ou C. Ou, em um cenário ainda mais otimista, das classes D e E.
Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.
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