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Nossa vida em ficção científica

Nossa vida em ficção científica - Coluna Elis Monteiro

Nossa vida já é ficção científica e nela já passamos a maior parte do nosso tempo, mesmo que às vezes nem percebamos. Andei pensando nisso esses dias, depois que a operadora Claro lançou o serviço de videochamada, tal qual conhecíamos nos desenhos animados que povoaram nossa infância. Escrevi aqui sobre como o 3G já é realidade e como ele se tornará cada vez mais importante daqui para a frente. Mas nossa vida em ficção científica vai muito além do telefone. Ele é só a tecnologia mais próxima de nós, já que vivemos com nossos telefoninhos grudados no corpo. Temos dezenas de outros exemplos de tecnologias que nos transportam para um futuro que, até agora, era apenas... futuro. Agora, ele se mistura com o presente e já podemos começar a planejar o que virá daqui para a frente. Boas idéias não faltam.

Dominada pelo otimismo de estar vivendo o futuro, mesmo estando com os pés no presente, conversei recentemente com o diretor de novas tecnologias da gigante IBM, empresa que é, reconhecidamente, uma das mais importantes estudiosas do que virá pela frente. De acordo com Cezar Taurion, fonte minha das antigas que vez ou outra tenho o prazer de entrevistar, já estamos vivendo a era das grandes tecnologias que, antes, eram consideradas “do futuro” e a tendência é experimentarmos muitas outras nos anos que virão.

Tentando identificar quais serão as tecnologias mais importantes, aquelas que maior impacto causarão no nosso dia-a-dia, a IBM elaborou um estudo, batizado de “IBM Five in Five” (IBM Cinco em Cinco), que tinha como intenção chamar a atenção para o que já está acontecendo e o que vai acontecer de 2008 a 2013. E as respostas não foram tão surpreendentes assim, nos provando que o futuro com certeza está mais próximo de nós do que supunhamos.

Segundo a IBM, é possível definir alguns dos pontos que mais se destacarão em nossas vidas nos próximos cinco anos de acordo com as inovações tecnológicas que vêm vindo por aí — e as que já estão sendo adotadas nos grandes centros urbanos, principalmente em países desenvolvidos economica e socialmente. Um exemplo clássico? O trânsito. Segundo a IBM, o modo como cada um dirige deve mudar radicalmente nos próximos cinco anos. Diz o estudo que “uma onda de conectividade entre carros e estradas transformará a forma como se dirige, aumentando a segurança e reduzindo os congestionamentos”.

É claro que a IBM é otimista ao considerar que a tecnologia fará com que o tráfego flua melhor, reduzindo a poluição, o número de acidentes e tornando os deslocamentos mais fáceis e com menos estresse. O próprio Taurion, no entanto, reconhece que, aqui, estamos tratando de planos que devem ser implementados primeiramente em centros urbanos desenvolvidos — e pelas mãos de classes políticas mais organizadas— como os países da Europa.

Isso não significa, é claro, que o Brasil não possa vir a sonhar com as benesses da tecnologia implementadas no trânsito, mas primeiro é necessário acabar com a mentalidade do “tapar buracos”. As autoridades brasileiras precisam começar a se planejar e a agir pensando no longo prazo.

Aqui, ainda em relação ao trânsito, enfrentamos uma série de problemas ligados principalmente à falta de educação dos motoristas. Quando os DVDs automotivos foram liberados, por exemplo, o que teve de motorista instalando-o quase dentro do volante não foi brincadeira. Na verdade, os aparelhos de DVD foram desenvolvidos para entreter os passageiros, e não para desviar a atenção dos motoristas. Temos muitos outros exemplos que comprovam que um pouco de educação ainda será necessário para que possamos receber novas tecnologias que auxiliem o trânsito. O uso de telefones celulares na direção é outro fator de perigo que merece a atenção das autoridades e uma maior conscientização por parte dos cidadãos.

O segundo segmento que, de acordo com a IBM, será afetado de modo positivo pela chegada de novas tecnologias é o de consumo de alimentos. Segundo a companhia a fim de evitar que a humanidade sofra, por exemplo, com os terríveis males causados pela obesidade, um flagelo em muitos países, novidades serão incorporadas até mesmo aos carrinhos que usamos durante nossas compras em supermercados.

A IBM explica a inserção do item na pesquisa “Five in Five”. Segundo a Big Blue, “você é o que você come, assim você saberá o que você come”. Nos próximos cinco anos, prevê a companhia, novas tecnologias permitirão que cada consumidor seja capaz de saber que tipo de alimento está adquirindo e consumindo, no momento em que compra cada item. Isso será possível através do uso de softwares e sistemas de comunicação sem fio avançados que darão acesso a informações mais detalhadas sobre a comida nas gôndolas dos supermercados, dentro dos carrinhos e até mesmo nas nossas geladeiras.

O terceiro ponto a ser considerado como alvo de mudanças é uma maior conscientização por parte de todos os cidadãos a respeito dos males causados pelo aquecimento global. Segundo me disse Taurion, será mais fácil ter uma atitude “ecológica” e ainda economizar dinheiro com a mudança. Para tanto, tecnologias inteligentes de energia estão surgindo para facilitar o gerenciamento do dito “saldo pessoal de carbono”.

Como isso se dará concretamente? Dentro das nossas residências, máquinas de lavar, luzes, equipamentos de ar-condicionado, assim como outros aparelhos, passarão a se conectar diretamente a uma “rede elétrica inteligente”. Assim, será possível ligar ou desligar aparelhos através de telefones celulares ou quaisquer outros equipamentos conectados à internet. Poderemos, assim, monitorar nossos gastos energéticos e nos tornar cidadãos mais ecológicos, ajudando, assim, a salvar o planeta.

A quarta tecnologia que vai impactar (e muito) nossas vidas é a telefonia celular. De todas, esta é a que está mais próxima do nosso dia-a-dia, uma vez que, agora, com a chegada do 3G, podemos nos considerar cidadãos conectados de fato — melhor, com mobilidade e maior velocidade. Com o 3G, o telefone celular pode passar a funcionar como sua carteira, seu vendedor de ingressos, o recepcionista de um evento ou de uma loja, o banco e até mesmo como cartão de crédito.

Um exemplo interessante dado por Taurion: dentro de uma loja, você vê uma roupa que lhe interessa e faz uma foto dela com o telefone. Conectado à internet, você poderá enviar a imagem para a Web e vestir a roupa no seu avatar 3D, de forma a visualizar como ela ficará em você. O celular também poderá (e já pode) guiar o usuário pela cidade. O uso da tecnologia Global Position System (GPS) no telefone, tecnologia que agora começa a aparecer com forma total no Brasil, já permite isso, vale lembrar.

Por último, o diretor de novas tecnologias da IBM lembra a importância que a tecnologia já tem e terá na medicina. Pois a área da saúde será, diz a empresa, a quinta grande impactada pelas novas tecnologias que chegarão nos próximos cinco anos, nos deixando mais perto ainda da ficção científica. Nos próximos cinco anos, os médicos poderão vir a ganhar “super poderes”, com tecnologias que permitirão, por exemplo, que o corpo humano possa ser visualizado por dentro sem a necessidade da invasão de bisturis. Imagens tridimensionais poderão montar um mapa do interior do corpo humano sem que os médicos precisem abri-lo. É ou não é uma revolução?

Revolução ou não, o fato é que saindo diretamente dos quadrinhos e das telas dos cinemas, estas e muitas outras tecnologias começam a ganhar vida, tornando nossa vida um pouco melhor.

Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.

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