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É possível viver sem o Google?

Google

Dia desses, um amigo daqui do jornal entrou em desespero e veio me procurar em busca de uma solução. Inexplicavelmente, o Google - e todos os seus aplicativos - entrou em colapso. O Gmail não entrava e o buscador estava parado, chegando a ficar fora do ar por várias horas. Pânico foi a palavra. Em poucas horas, outros repórteres começaram a se unir em torno do desespero do colega. Como viver sem o Google?
- Você sabe como funciona o Yahoo!? - me perguntavam as pessoas, a todo instante.
- Da mesma forma que o Google - eu respondia, incessantemente, para uma platéia de angustiados.

De repente, caiu a ficha. Quando o Google pára, a vida parece que congela junto. Comecei a conjecturar como seria nossas existências se, de uma hora para a outra, os dez mil servidores sediados em Mountain View, na Califórnia, EUA, dessem uma pane geral ou fossem vítimas de algum tipo de ataque. E a resposta que encontrei foi: "não, não dá mais para pensar em uma vida que não inclua o Google".

E não estamos falando apenas do buscador - que, aliás, inclui os "engines" do Yahoo! em suas buscas, o que poderia significar que os dois serviços andam em sintonia um com o outro. O Google é, hoje, o maior agregador não só de buscas mas de nossos arquivos pessoais, de tudo o que faz falta no dia-a-dia. No Gmail estão todos os meus contatos; no Orkut, a lista dos amigos e conhecidos que consegui resgatar. Minha agenda pessoal e profissional está disposta no Google Calendar, assim como meus amigos estão sempre à disposição, online no Gtalk. Como ficar sem tudo isso?

Assim como eu, acredito que muita gente já parou para pensar na dependência que passamos a ter de serviços virtuais, que estão, no entanto, sujeitos a todo tipo de intempérie. Servidores de internet, todo mundo sabe, são criaturas vulneráveis, mesmo que protegidos estejam com o maior número possível de sentinelas - sob a forma de softwares ou de doutores especializados, como é o caso do Google. A internet em si é vulnerável, e, assim como nós, está sujeita a todo tipo de acaso do destino.

O problema surge quando misturamos nossa vida pessoal com a profissional. A agenda do celular, que também é vulnerável, não nos basta mais. Precisamos de email, de serviços como Orkut, Gmail, MSN, Gtalk. Simplesmente porque nos tornamos dependentes da rede mundial. Tudo isso tem um lado positivo: o acesso às informações ficou mais prático, mais rápido, mais simples, mas isso nos leva a um grau de dependência que, sinceramente, me assusta.

No caso das redações dos jornais, a dependência da internet tornou-se algo realmente assustador. Passamos dia e noite conectados a sites internacionais, a agências de notícias, a notícias em tempo real, crentes de que o mundo está ali, conectado, e de que as notícias, quando acontecem, imediatamente estarão disponíveis no ciberespaço. Eu, enquanto repórter de tecnologia, simplesmente não posso dar um passo sequer sem o background que a rede mundial me proporciona.

Um exemplo básico: quando grandes eventos de tecnologia estão acontecendo em outros países, somos alimentados de informações não só pelos nossos correspondentes - que nos mandam as notícias por email, não mais por telefone - como pelos serviços noticiosos disponíveis na internet. Cnet, Slashdot, Wired, Engadget, toda a rede de informações se concentra na lista de Favoritos do nosso navegador. Isso sem contar com o uso do RSS, que nos permite receber atualizações constantes dos sites. Podemos mencionar também os blogs, que estão se esmerando cada vez mais na cobertura dos eventos e no aprofundamento das discussões. É muita informação, o tempo todo, ao alcance de um clique de mouse. Surgiu uma dúvida de última hora durante a confecção de uma reportagem? Antes, iríamos direto a uma enciclopédia como a Barsa. Agora, vamos à Wikipedia.

Assim que percebi a vulnerabilidade de minha condição de "conectada", comecei a pensar em alternativas. Como sobreviria caso uma pane geral desse cabo da rede que me protege e me alimenta? E a resposta me assustou: não há enciclopédia nem telefone que substitua aquela que só começou a fazer parte de nossas vidas há meros quinze anos.

O grau de dependência do mundo em relação ao Google pode ser bem exemplificado pelos últimos números divulgados em dezembro do ano passado: o Google é o segundo site mais visitado pelos internautas em todo o mundo, perdendo apenas para os produtos Microsoft (Hotmail é campeão ainda, não dá para negar, assim como o MSN Messenger).

Das 736 milhões de pessoas que usaram a internet em novembro de 2006, 475,7 milhões navegaram pelo Google e 475,2 milhões passaram pelo Yahoo! A Microsoft, com todos os seus serviços, manteve a dianteira com 501.720 milhões de visitas. O crescimento do número de acessos nos serviços Google foi de 9% de um ano para o outro, contra 5% do Yahoo! e 3% da Microsoft. Ou seja, o Google só cresce na preferência do internauta.

Como a empresa de Mountain View continua sendo, disparada, a mais inovadora, é possível que ela ultrapasse a Microsoft em números de acesso ainda este ano, é o que esperam os analistas de internet. Ainda mais agora, depois da compra do YouTube, outro gigante em número de visitantes.

O que tudo isso quer dizer? Que o desespero do colega de redação é compartilhado por mais de 400 milhões de pessoas, que passaram a depender pessoalmente, profissionalmente e até emocionalmente dos serviços Google. Medo, a constatação dá muito medo. Ainda bem que, até agora, o Google tem (tentado) manter o lema "Don´t be evil" ("Não seja mau"), o que nos leva a crer que os "meninos" de Mountain View querem, sim, conquistar o mundo, mas com boas intenções. Espero que continue assim.

Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.

» Para comentar esta matéria entre em contato com a Elis Monteiro.

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