Pela primeira vez em anos fiquei tentada a comprar um notebook. Uma vez, há mais ou menos uns sete anos, eu ganhei um importante prêmio de jornalismo, o I Prêmio Unisys. O vitorioso levava para casa um lindo laptop da Semp Toshiba, super fino (para a época) e poderoso. Ganhei o prêmio e, mesmo tendo um desktop ruinzinho em casa, acabei não usando o notebook. Não ajudou muito o fato de ele ter vindo com defeito no modem. Um notebook sem internet? Mas que sentido isso faria? Somado a isso o meu desapego a equipamentos eletroeletrônicos (naquela época, agora tudo mudou), e eu me peguei vendendo o meu prêmio, por um preço bem razoável à época – R$ 4 mil. Por menos de R$ 5 mil ninguém levava computador portátil nenhum para casa, o que acabou fazendo com que a Lilian, a moça que comprou meu notebook, conseguisse uma boa pechincha.
Sete anos depois, por R$ 4 mil eu poderia adquirir nada menos que um Macintosh, um MacBook da Apple com o qual venho sonhando há anos. Ou um Sony Vaio dos mais finos – os mais novos saem por bem mais.
É incrível como o mercado de computadores no Brasil evoluiu nos últimos sete anos, desde que peguei meu Semp Toshiba e viajei com ele de São Paulo para o Rio, via ponte aérea, segundo a maleta no peito, de encontro ao coração, com medo de alguém roubar. Agora, um desktop até bonzinho pode ser adquirido por menos de R$ 1 mil e um notebook sai por menos de R$ 2 mil.
Estive pesquisando e acabei me deparando com verdadeiras pechinchas nos sites de comércio eletrônico. Como assim um Semp Toshiba custar menos de R$ 1.4 mil? Tudo bem que ele não traz o Windows instalado, e sim o Linux, mas eu tenho mesmo um pacote fechadinho do Vista Ultimate! Ou seja, este Semp poderia estar para mim. Não estivesse eu encantada por um Dell Inspirion novinho em folha, que sai por menos de R$ 2,2 mil.
O mais legal em comprar na Dell é que você pode montar todo o sistema usando as ferramentas de configuração do site. Assim, vai escolhendo item por item. Como quem não quer nada, me peguei escolhendo o Windows Vista (não havia lá a opção do Windows XP); um processador Core 2 Duo da Intel, 120Gb de disco rígido, gravador de DVD, Wi-Fi, 2Gb de memória RAM, mouse pequeno, teclado wireless, ou seja, um senhor notebook. E ainda por cima... vermelho!
Ainda não sei se escolhi o modelo pelas suas atribuições tecnológicas ou pela cor “mulherzinha”, mas sei que agora fico com vontade de ir lá o tempo todo e ficar incrementando a compra. O resultado de toda essa liberdade? Ainda não comprei o computador e continuo sonhando com ele.
E por que ainda não o adquiri, mesmo com preço tão interessante para uma configuração deveras honesta? Porque o mercado pode me oferecer preços ainda menores e morro de medo de pagar R$ 2,2 mil por um equipamento que na semana que vem pode estar custando menos de R$ 1,5 mil. Porque é neste ritmo que tem mudado esse mercado.
A queda nos preços dos notebooks é ainda mais interessante para o mercado do que a diminuição no valor dos desktops. Estes ficaram obsoletos, cá entre nós. Basta dar uma boa olhada naquela quantidade insana de fios que ficam escondidos por detrás das nossas estações de trabalho para nos darmos conta de que esse formato aqui (o que estou usando agora para escrever este artigo, diga-se de passagem) está com os dias contados.
O notebook faz muito mais sentido na época do Wi-Fi e do 3G e, quem sabe daqui a um tempo, do WiMax. Para que ter um equipamento inteirinho pregado a uma mesa se posso me movimentar pela casa livre de fios e escolher o local de trabalho dependendo do meu humor?
Tem mais: antes, os desktops eram infinitamente mais evoluídos que os notebooks. Hoje, os micros portáteis dão um banho nos computadores de mesa. Quer um processador de núcleo duplo? Eles já têm. Assim como um coração de múltiplos núcleos. Ou seja, os portáteis já se comportam como gente grande. E com preços tão sedutores...
Por isso, decidi que está na hora de me desplugar. O difícil vai ser fazer uma boa faxina no desktop velho de guerra e salvar todo o HD em algum lugar. Morro de medo de perder meus preciosos arquivos. Outra coisa: sempre fica na minha cabeça aquele resquício do mundo obsoleto dos fios e vez ou outra me pego indagando se o notebook vai dar conta do meu recado. Isso apesar de o modelo que eu escolhi ter mais memória RAM, mais HD e um processador muito melhor que o meu micro atual. Acho que os fios, no final das contas, acabam dando uma sensação de segurança. Enquanto o notebook parece mais uma aventura...
Seja como for, estou tentada mesmo a comprar um laptop. E deixá-lo como “primeiro micro da família”, uma vez que vou precisar usar o Velox em algum lugar. Como o segundo computador já é um notebook, acho que em breve terei uma casa totalmente wireless. Pronto. Já me sinto até mais moderna. Porque não tem jeito – engana-se quem pensa que o futuro terá fios. Os computadores tais como os conhecemos hoje estão com os dias contados, não tenho dúvidas disso. Cabe a nós, velhas peças de museu, nos adaptarmos à novidade.
Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.