
Escrever há muito tempo sobre o mesmo assunto tem suas compensações: você acaba dissertando sobre temas que já conhece de cadeira e fica mais fácil dar opiniões. No mundinho da tecnologia é assim. Tudo muda, mas nem tudo se transforma. Acaba sendo mais do mesmo, essa é uma boa definição. O hardware muda mas não se transforma – vai evoluindo, migrando de plataforma, mas no final é sempre a mesma coisa: um meio para se chegar a um fim. Com o software é a mesma coisa: ele é a porta de entrada para um universo de produtividade e comunicação que nada mais fez do que mudar a forma de lidar com as informações. Antes era o papel, agora é um monitor. Há assuntos, no entanto, que por mais que a gente pesquise, escreva, debata, reflita, não mudam. Não saem do lugar. Inclusão digital é isso. Em pleno Século XXI, quando as máquinas já dominam o planeta, quando os meios de produção já se modernizaram e o homem já foi capaz de chegar até à Lua e, agora, realiza viagens interplanetárias em ônibus alugados por milionários, há pessoas que ainda sequer deram os primeiros passos. Nem engatinhando estão: continuam paradas em algum canto do espaço, cantinho (ou cantão) reservado aos que não tiveram e nem têm expectativa de ter contato com as inovações. É assim há décadas e, pelo andar da carruagem, assim será por muitas outras.
O Brasil vive uma situação sui generis. É o país cujo internauta passa mais tempo navegando – em média, 21 horas por mês. Mas isso não nos faz subir degraus no ranking dos países que mais têm acesso às ferramentas cidadãs que permitem o acesso ao mundo do conhecimento. Em 2006, foram vendidos sete milhões de computadores no país. É muito? Claro que sim. Mas isso pouco serviu para diminuir o tamanho do precipício que separa os ricos dos pobres e, pior, os que podem competir no mercado de trabalho dos que não terão as mesmas habilidades.
Inclusão digital no Brasil é um tema tão espinhoso quanto inclusão social. Somos um imenso país de desigualdades exorbitantes, onde as classes A, B e um pouco da C não só comem direito e têm acesso à educação e cultura como podem navegar no mar de conhecimento e comunicação que é a internet. Temos mais de 25 milhões de internautas, mas estes ficam concentrados nas três classes econômicas mais privilegiadas, enquanto as demais continuam no limbo da comunicação, como se ainda vivessem no Século XX. Pior: no início deste. Sem acesso a computadores e, em casos ainda mais graves, sem contato com eletricidade e telefonia.
Há solução? Seria fácil dizer que sim, mas o Brasil também tem posição de destaque no ranking dos países que nada fazem para mudar as desigualdades sociais. O governo federal criou um programa para disseminar o uso das ferramentas tecnológicas, o “Computador para todos”. Este permite que se compre computadores de até R$ 4 mil com isenção de impostos. Ajudou, e muito. Agora, a classe C pode comprar o sonhado PC. Mas para quem sequer tem acesso à alimentação, de nada vai adiantar.
Aqui, faz-se necessário um programa sério de disseminação do acesso à tecnologia em espaços públicos. O cidadão não tem condições de comprar um computador (quiçá, pagar a conta de telefone e do acesso à internet)? Na escola ele poderia vir a ter. O problema, no entanto, é que nem escola há; ainda mais computadores e infra-estrutura de acesso à internet.
Quando se fala em inclusão digital fala-se também em universalização dos serviços de telecomunicações. Sem telefone não há como ter acesso à conexão via DSL (só para ficarmos em uma). No Brasil, no entanto, apenas 20% da população tem acesso à telefonia fixa. É uma lástima. Para os demais, o orelhão ainda é a única forma de comunicação com o mundo exterior. Isso quando os telefones públicos estão disponíveis. Nos recantos do Brasil, até ele é raro.
Se a situação da telefonia fixa vai melhorar? Pior que não. Em recente conversa com o principal executivo do setor, fomos informados de que as previsões para a universalização dos serviços de telefonia fixa são as piores possíveis. Simplesmente porque as operadoras preferem manter seu raio de atuação exatamente onde a concorrência já é grande – os centros urbanos, que concentram as maiores rendas per capta do país. O interior do país fica relegado a segundo e terceiro planos. Não há como mudar o status quo, a não ser que o governo, sempre este, faça a sua parte.
O problema – e aí volta à questão lá de cima, dos assuntos recorrentes – é que o governo insiste em nada mudar. Só para se ter uma noção do que emperra os projetos: o Brasil já soma R$ 6 bilhões de recursos só de um fundo, o Fundo para Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST), que sai das contas telefônicas que todos pagamos. Esta verba, no entanto, está parada há ANOS, contingenciada pela equipe econômica do governo para gerar superávit primário. Vale lembrar que não estamos falando apenas de um governo, mas de todos os governos que passaram pelo Planalto nas duas últimas décadas. Nada muda, nada se transforma.
A última notícia que tivemos do Fust nos foi dada pelo próprio Ministro das Comunicações do governo Lula, Hélio Costa. Segundo ele, há projetos preparados que só não estão em andamento porque ficaram parados nas gavetas da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Esta, por sua vez, se defende afirmando que não cabe a ela criar projetos públicos, só executá-los. Ou seja, devido a picuinhas políticas os milhões e milhões de brasileiros excluídos do mundo digital assim continuarão.
Mais do mesmo. No caso do Fust, nada mudou em mais de seis anos – quando começamos a escrever sobre o assunto. Neste meio tempo, a tecnologia se transformou, os equipamentos e os softwares ficaram mais modernos, nasceu até um universo paralelo virtual, o Second Life, onde toda a Humanidade é nova. Mas nem a este novo mundo os excluídos digitais terão acesso porque precisam de computador para chegar até ele. O futuro dessa gente, se assim continuar, será às escuras. Infeliz Brasil, infelizes nós...
Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.