Quem não se lembra da boneca velha de pano ou dos pequenos móveis construídos com caixas de fósforos, dos peões de madeira rodando pela casa ou de brincadeiras como “pula-carniça”, elástico, pique-esconde? Todos fomos criança um dia e, claro, tivemos nossos brinquedos preferidos. Grande parte das crianças de hoje, no entanto, não conhece mais as brincadeiras artesanais. Tudo porque as prateleiras das lojas estão cheias de produtos hi-tech sob a forma de carrinhos e pistas de corrida, robôs comandados por controle-remoto e, agora, bonecas que, além dos avanços físicos, ganharam também um pedacinho só seu no mundo virtual. E, claro, podem trocar informações com blogs, fotologs e por aí vai.
Lançamento da fabricante Mattel este ano — empresa esta que, diga-se de passagem, está enfrentando uma série de problemas com o governo brasileiro por conta da presença de chumbo na composição de seus produtos — a boneca Pixel Chix chegou a ganhar uma casa “de verdade” que, no entanto, é conectada a outras casas, automóveis e até a shoppings de brinquedo através de artefatos techie.
Até aí, nenhuma grande novidade. A diferença está na ligação que a boneca tem com o ciberespaço. Pixel Chix pode ter seus movimentos e ações — controlados pela criança — projetados em tela LCD sobre os objetos reais dentro da casinha da boneca. Há ainda uma janela virtual que recebe até luz do sol e da lua (tudo virtual).
Além das projeções em LCD, a bonequinha da Mattel pode ser controlada, alimentada e mimada. É uma espécie de tamagotchi, só que em versão maior e, claro, mais divertida — quando a criança fica muito tempo sem alimentar ou dar carinho ao brinquedo, começam a aparecer, dentro da casinha, visitantes indesejáveis, como ratos ou animais peçonhentos.
Por falar em tamagotchi, quem não se lembra dos bichinhos de estimação digitais que reclamavam de fome, demandavam cuidados especiais, papinha na hora certa, senão morria de fome, terror da garotada? Os tamagotchis tiveram seu momento de glória, mas foram ultrapassados pela ferocidade da indústria e, hoje, há movimentos isolados (e infrutíferos, até o momento) de criação de tamagotchis em versão telefone celular.
Os telefones móveis, aliás, também acabaram se tornando objeto de cobiça da criançada. Recentemente, a operadora Claro lançou um telefone infantil, o Celplay, que, tirando algumas funções de ligações de voz controladas pelos pais, no final das contas é nada mais nada menos que um tamagotchi em versão desenvolvida. Para agradar ao gosto infantil, foram criados modelos em formato de leão, golfinho e até ararinha-azul.
No caso da Pixel Chix, da Mattel, a tecnologia deu uma forçona ao permitir a conexão da casinha da boneca (e dela própria) a outras casas, através de uma interface lateral. A boneca pode, assim, eletronicamente, receber as visitas das amiguinhas. A novidade segue para dentro do carro, onde a criança pode até selecionar a
música que deseja ouvir. Pixel Chix é tão moderna que ganhou até um site www.pixelchix.com.br e um blog. No site principal é possível baixar a boneca para o computador e brincar com ela.
Pegando carona na onda dos brinquedos digitais, a TecToy resolveu entrar de sola e lançar produtos com apelo tecnológico para fazer a concorrência babar — e as crianças, salivarem. A primeira aposta é um simpático coelhinho digital que recebeu o curioso nome de Nabaztag (coelho em armênio). À primeira vista, ele parece um
simples coelho de plástico com luzes coloridas e que, de quebra, ainda é capaz de mover as orelhas. Mas segundo os criadores do brinquedo, os franceses Olivier Mével e Rafi Haladjian, Nabaztag é, antes de um brinquedo, um objeto inteligente.
A intenção da TecToy é vender a imagem de um “coelho companheiro” que, assim como os bichos reais de estimação, é capaz de curar (ou aliviar) as carências do dono. Nabaztag usa tecnologias de ponta, recursos de interatividade, baseados nos preceitos da Web 2.0. Para “viver”, o simpático coelho precisa de energia elétrica, um computador (PC ou Macintosh), conexão à internet em banda larga e uma rede sem fio (Wi-Fi). A partir daí, o usuário pode programá-lo, por meio de um portal na internet criado especialmente para o bichinho, para fazer as mais variadas tarefas. Equipado com um sintetizador de voz, Nabaztag pode, dentre outras tarefas, ler as notícias do jornal preferido, dar a previsão do tempo ou informar as cotações da bolsa de valores, tudo possível graças à sua integração com a rede mundial de computadores — antes de começar a usá-lo, o dono precisa fazer um cadastro na internet. O usuário ainda pode programá-lo para avisar se chegou alguma mensagem eletrônica em sua caixa postal e, uma vez confirmada a presença dos emails, o coelho começa a fazer movimentos para chamar a atenção do dono.
A mesma coisa acontece quando a bolsa de valores passa por mudanças. Assim que as “notícias” chegam à internet, o coelho, que está permanentemente conectado, acende luzes. Mas um bichinho de estimação estático não faz muito sentido, certo? Será que Nabaztag é capaz de, por exemplo, seguir o dono ou abanar o rabinho quando está feliz? A segunda questão é mais complexa — embora o Aibo, cachorro-robô da Sony, o faça — simplesmente porque coelhos não têm esse hábito. Mas Nabaztag, por ser um equipamento sem fio, pode acompanhar o dono em todos os ambientes da casa, tudo configurável pelo proprietário. Ou, se o dono quiser ir além da relação “afetiva”, pode realizar tarefas do dia-a-dia com a ajuda do bichinho.
Um exemplo? Dá para usá-lo para fazer ligações via internet (através da tecnologia Voz sobre IP) ou aproveitar o coelho para bater papo com os amigos através de softwares de mensagens instantâneas que tenham recursos de voz (quase todos têm). Por último, caso o proprietário aceite compartilhá-lo com os filhos (já que muito marmanjo vai querer ter um brinquedinho desses), o coelhinho inteligente é capaz de agir como babá, sendo programado para avisar as crianças da hora da lição ou do almoço ou do colégio.
Isso é possível através do uso da tecnologia RFID (Radio Frequency IDentification ou, em português, Identificação por Rádio Frequência). Trata-se de um método de identificação automática através de sinais de rádio, que permite a recuperação e o armazenando de dados remotamente através de dispositivos diversos. Aqui, o tal dispositivo seria o próprio Nabaztag.
Que fique claro que o coelho “digital” não foi criado para substituir os bichinhos de estimação reais. O afeto destes, afinal, é real. E, o comportamento, leal.
Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.