A Apple acabou de anunciar que já vendeu nada menos que 100 milhões de iPods. A marca, histórica, só mostra o apelo do MP3 player mais famoso do mundo. Que ele foi uma revolução ninguém duvida. O iPod quebrou paradigmas ao levar o entretenimento direto para o bolso do consumidor, sem meias escalas. Fez bonito também porque incentivou a mudança de rumo da indústria do design. Esta, catapultada por uma boa idéia, foi lá e provou que tecnologia pode, sim, ser aliada da beleza. O MP3 player da Apple ainda é o tocador de música digital mais famoso, cobiçado e vendido do mundo, o que não significa, no entanto, que seja o melhor do mercado.
De uns dois anos para cá, a concorrência tem mostrado fôlego para enfrentar, páreo a páreo, a empresa capitaneada pelo showman Steve Jobs. Além da Creative, que mostrou que sabe fazer bons tocadores. Podemos citar desde o mais simples, o Muvo, da Creative, até o mais recente, o Zen Vision:M, da mesma marca, que em testes comparativos chega a surrar o iPod em vários quesitos. Não esquecendo, no meio do caminho, o Zune, novidade recente da Microsoft. Além de mandar no universo dos sistemas operacionais, a empresa de Bill Gates não quis ficar de fora do novo filão e também resolveu investir pesado para fazer de seu player um sucesso de vendas à altura do iPod.
O boom das vendas, entretanto, não ocorreu, apesar do lançamento badalado e mesmo o Zune custando a mesma coisa que o iPod Video (US$ 249 nos Estados Unidos). As vendas até que foram bem na semana de lançamento, mas não se mantiveram e a Apple continuou (e vai continuar durante muito tempo) mandando no mercado. No meio da disputa, uma boa surpresa acabou sendo a família de tocadores digitais da Samsung. Testamos o YP-K3 e a impressão que se tem é de que, quando comparado a este, o iPod poderia melhorar (e muito).
Parece até heresia dizer que qualquer equipamento é melhor que o iPod. Mas temos nossas razões. Em primeiro lugar, o tocador da Samsung é mais simples. Enquanto o iPod exige o uso do software iTunes, que por si só pode ser considerado um desastre, o player da Samsung é capaz de ser lido pelo computador como driver externo. Quando é plugado no USB do micro, ele torna-se um drive novo (no caso do nosso micro, drive E). Para jogar músicas para dentro dele, basta um simples “copiar e colar”. No final das contas, essa facilidade não tem preço. Só para se ter uma idéia da confusão que é o iTunes, uma vez selecionada a opção “Auto fill” (auto-preenchimento) do software corre-se um imenso risco de apagar todas as músicas presentes dentro do aparelho. Explicando: a opção faz com que o tocador se alimente automaticamente das atualizações de arquivos das pastas pré-selecionadas. Caso esteja marcada uma pasta vazia, ele apagará todas as suas canções e vazio ficará. Pode parecer bobagem, mas para quem tem o hábito de encher constantemente o player de músicas, acaba sendo uma grande dor de cabeça e um contratempo desnecessário.
O K3 da Samsung também não deixa a dever ao iPod no que diz respeito à interface. O aparelho, que é todo touchscreen (sensível ao toque) traz as opções de Rádio FM (que funciona, e bem), Music (o player de fato) e o gerenciador de arquivos, onde podem ser salvas as fotos e os arquivos em geral. Para ter acesso ao menu, basta selecionar uma opção presente no tecladinho touchscreen. Neste ponto, ele se parece muito com alguns celulares disponíveis no mercado, que permitem o acesso ao menu através de um único botão.
Mas a Apple é sempre a Apple principalmente no quesito design, certo? Certo. A empresa é realmente imbatível e tem um time afiado prontinho para criar os novos sonhos de consumo que todos adotaremos. A questão é que até aqui, no que parecia ser a praia da Apple, a Samsung marcou um golaço. O K3, assim como pelo menos dois de seus irmãos, tem um design belíssimo. É elegante, cabe na palma da mão e é fininho, podendo ser comparado a um iPod Nano, só que um pouquinho maior (não mais grosso, apenas com dimensões superiores). E aqui vai um dado interessante: a caixa do K3 é praticamente irmã gêmea da caixa do iPod. Num artigo recente, o jornalista — e nosso colega de redação de jornal — Tom Leão fez uma minuciosa comparação entre dois dos principais concorrentes: o Zen Vision:M, da marca Creative, e o iPod Video, um dos mais modernos atualmente no mercado que já traz, inclusive, compatibilidade com arquivos de vídeo MP4.
Em primeiro lugar, constatou Tom, o iPod é levemente mais fino que o oponente, mas é mais alto. O segundo tópico abordado foi a qualidade da imagem, que o colega considerou infinitamente superior no player da Creative, embora as telas LCD de ambos sejas iguais (2,5 polegadas e 320 x 240 pixels). É que o Zen Vision M trabalha com 262 mil cores contra 65 mil do iPod. Precisa dizer mais alguma coisa? Bem, para quem deseja o player para assistir vídeo, o fato conta, e muito. Em um ponto Tom Leão foi categórico, corroborando a opinião da maioria: os fones da Apple são os melhores. Se encaixam direitinho e, cá entre nós, ainda são umas gracinhas.
Ao final do teste, nosso colega chegou a uma interessante conclusão: apesar de todo o marketing e apesar de o iPod ter se tornado sinônimo de música digital, há produtos melhores no mercado. Nós vamos ainda mais além: há produtos melhores, mais baratos e mais simples. A Apple pode ser a mais famosa e não se pode negar o tamanho da força que ela tem no ramo do entretenimento digital, mas eu, enquanto consumidora, não trocaria um K3 por um iPod, mesmo que este traga numerosos 80Gb de capacidade.
Ah, sim: antes que perguntem: o K3, que está custando algo em torno de US$ 260, tem apenas 2G de armazenamento, mas e quem precisa de mais?
Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.