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Nossos filhos e a tecnologia

Nossos filhos e a tecnologia  - Coluna Elis Monteiro

Meu filho Guilherme acabou de nascer – está com dois meses – e já colocou meu mundo de ponta-cabeça, como não poderia deixar de ser. Nada mais é como costumava ser: meu sono não é mais o mesmo, assim como a forma como eu encaro o mundo ao meu redor. Até mesmo o jeito como me relaciono com os semelhantes já mudou – ganhei uma espécie de doçura a mais, talvez por ter sido responsável pelo nascimento de mais uma linda criatura de Deus. E tenho plena consciência de que a forma como me relaciono com a tecnologia vai mudar. Porque agora tudo passa a ter um sentido. A televisão? Agora, serve única e exclusivamente para me acompanhar nas madrugadas insones, evitando que eu cochile entre uma mamada e outra. O controle remoto? Passa a servir como prolongamento das minhas mãos, para que eu não precise interromper uma mamada para mudar de canal ou aumentar o volume.

O celular? Para estar constantemente em contato com aqueles que poderão me socorrer em caso de alarme, mesmo que seja aquela emergência sem muita razão, fruto da insegurança de mãe de primeira viagem. O microondas? Já reservado para aquecer a papinha, o leitinho, a sopinha, o feijãozinho, tudo no diminutivo, como devem ser tratadas as coisas de criança.

O computador, velho amigo de guerra, agora se tornou artigo de luxo, para ser usufruído com deleite nas horas em que o bebê está dormindo. Internet? Para navegar por sites de bebês ou, em momentos mais ousados, para comprar alguma coisa (para ele) nos sites de comércio eletrônico. Eu disse: nada mais é como costumava ser. O tempo passa a ser escasso e, a culpa, enorme. Nas horas vagas, penso em me perder no mundão de bits e bytes com o qual era tão íntima, mas agora há cômodas para arrumar, panos de boca para passar, roupinhas para lavar e pendurar, é todo um novo universo que se descortina.

E não é que foi justamente quando não pude mais me dar ao luxo de estar constantemente conectada ao mundo que parei para pensar na importância que isso tudo tem nas nossas vidas? Não é mais possível viver sem internet. Quando não estamos conectados, seja pelas razões que forem, parece que o mundo fica obsoleto, lento, desinformado. A TV não satisfaz tanto quanto uma boa navegada pelos portais dos grandes jornais. A notícia sempre chega atrasada nos jornais de papel, e até na TV a velocidade nunca é comparável à da rede mundial de computadores. Porque a edição – e inclusão de notícias – está ao alcance do mouse. E, melhor: todo mundo pode agir um pouco como jornalista e incluir notícias em suas páginas pessoais ou blogs. E assim criamos toda uma nova cadeia de alimentação de conteúdo.

E em pleno momento de descoberta de um novo universo desconectado, paro para pensar em como será a vidinha deste ser que pus no mundo. Se formos bastante conservadores, dá para aferir que aos dois, três anos de vida, ele já estará se comunicando ao telefone e, provavelmente, usando os serviços de vídeo chamada 3G para ser mostrado para os avós. A infância dele, claro, não será como a nossa. Primeiro porque ele já nasceu dono de um blog – http://guilhermenomundo.blogspot.com. Segundo, porque aos dois meses ele já tem centenas de fotos digitais que registram cada pequeno momento, um sorriso, um arroto (inacreditável como nós, mães, damos valor a um arroto bem dado, sinal de que o bebezinho não vai passar por maus bocados e sufocar dentro do berço).

O meu hoje bebê e amanhã um grande homem falará mais com os amigos (ou pelo menos deveria), navegará pela internet com maestria e será muito mais esperto com acessórios e periféricos – isso, é claro, lembrando que muitos deles, como o mouse, estão com os dias contados e irão para as galerias de exposição juntamente com telefones com fio e gabinetes de computador.

Meu filho terá uma relação mais próxima com a internet. Que, para ele, não será apenas uma estranha que adentrou em sua vida sem pedir permissão e acabou se tornando fonte principal de consulta. Ele já terá nascido na era digital, na época da Web 3.0, e achará que todos nós, que conhecemos a máquina de escrever e com elas travamos batalhas homéricas, somos meros artefatos de museu.

Já parei para pensar também em como serão os celulares daqui a, digamos, 18 anos. Quando meu filho atingir a maioridade, os telefones terão que cara? Serão pequenos, grandes, coloridos, usarão hologramas, terão teclado? Não faço idéia. Sei que meu garoto estará sempre conectado, que sua carteira provavelmente não carregará um cartão de crédito de plástico e que seu celular vai me trazer muita paz, uma vez que conterá um chip GPS para que eu possa monitorar meu rebento em tempo real. Coitado...

Dentro de casa, as paredes serão cobertas de quadros vivos – telas de LCD ou OLED espalhadas por todos os aposentos. E a recepção da TV será digital, claro. Posso apostar que meu filho sequer vai ter contato com TV analógica, uma vez que o sinal digital já chegou para nós, velhas peças de museu.

E caberá a mim contar a ele como era a vida sem celular – sim, eu me lembro bem. E como a TV transmitia um monte de fantasmas, vindos sabe Deus de onde. Ah sim: as atrizes naquela época eram muito bonitas e não aparentavam mais idade, não tinham espinhas enormes no rosto nem aquelas manchas que sempre tentaram esconder, mas que a TV digital faz questão de botar para fora.

E, por fim, o computador do meu filho será sensível ao toque (touchscreen) e ele comandará as funções ora com os dedos ora com a voz ora, quiçá, com o piscar de olhos. Porque a tecnologia é como o pequeno milagre que eu “produzi”: tem uma vida inteira pela frente e um futuro de possibilidades infinitas.

Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.

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