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A novela Microsoft-Yahoo!

A novela Microsoft-Yahoo!  - Coluna Elis Monteiro

A história já se arrasta há meses. Antes mesmo da aposentadoria de seu fundador, Bill Gates, que se retirou da companhia para se dedicar à fundação beneficente que leva seu nome, a Microsoft já tinha dado largada a um cerco que ainda persiste. A empresa quer porque quer adquirir o Yahoo!

Mais do que uma empresa de buscas, o Yahoo! tornou-se uma companhia de múltiplos interesses que faz frente até a gigantes como a Google. E tem uma trajetória muito semelhante à da dona do Orkut e do YouTube. Hoje, a empresa tem, além do buscador que leva seu nome, programas de mensagens instantâneas, webmail, portal de vídeo e, mais importante, um programa de links patrocinados que serviu de exemplo para muitos outros que foram lançados depois, inclusive o do Google.

A empresa nasceu em 1994 e, agora, enfrenta uma marcação cerrada da Microsoft. Seu presidente Roy Bostock, e o fundador da companhia, Jerry Yang, endureceram e decidiram não aceitar a compra e, mais do que isso: passaram a sinalizar alianças com inimigos em potencial da Microsoft.  No mais recente lance, a empresa fundada por Bill Gates anunciou, já no começo de julho, que não desiste da aquisição da empresa rival. Agora, a MS decidiu anunciar que continua com a intenção de abiscoitar o Yahoo!, desde que este substitua seu conselho de diretores. Isso antes da eleição do conselho da empresa, marcada para o primeiro dia do mês de agosto.

O porquê da exigência? Simples: com o corpo atual de diretores, a Microsoft não tem conseguido progressos no sentido de formar uma parceria. Ou seja, os diretores atuais estariam impedindo a compra da companhia, atrapalhando, assim, os planos da Microsoft. Se o Yahoo! não tem interesse no negócio? Tem sim. Segundo o presidente, a empresa está prontinha para ser adquirida pela rival. Desde que esta “faça uma proposta para adquirir toda a empresa, e não  apenas o serviço de buscas”, visando a competir com o Google.

A história vem se arrastando desde o dia 1º de fevereiro, quando a Microsoft apresentou proposta formal de US$ 44,6 bilhões pela empresa. Foi no dia 11 de fevereiro que o Yahoo! recusou a proposta, não sem antes ver suas ações dispararem – a MS teria oferecido US$ 19,18 por cada uma e dez dias depois, elas já valiam US$ 29,87. A Microsoft não desistiu e, no dia seguinte, em carta, afirmou que a empresa “estaria sendo hostil” e que os acionistas teriam o direito de conhecer cada detalhe da proposta.

Um mês depois, começaram a circular os boatos de que o Yahoo! estaria em francas negociações com a Time Warner, visando a algum tipo de acordo com a AOL – sim, a velha America Online ainda existe.

Em abril o tempo “fechou”. A Microsoft mandou uma carta ao Yahoo! avisando que, caso a empresa se negue a estudar sua proposta, faria uma oferta diretamente aos acionistas, que estariam sendo prejudicados pela negativa do corpo de diretores. A resposta do Yahoo!? Avisou a Microsoft de que sua luta estava sendo improdutiva e que uma rendição seria possível caso a interessada aumentasse o valor da proposta.

Dois dias depois, o mesmo Yahoo! anunciou que está testando a aplicação de anúncios do Google em sua ferramenta de buscas. A Microsoft devolve a afronta afirmando que tal parceria seria considerada anti-competitiva e dificilmente aprovada pelos órgãos competentes.

Ainda em abril, a Yahoo! divulgou seus resultados financeiros relativos ao primeiro trimestre e, segundo seu fundador, Jerry Yang, a empresa está passando por uma fase “empolgante”, levando a crer que a insistência da Microsoft só fazia crescer o valor das ações da companhia .

Em maio, a Microsoft chegou a anunciar a desistência oficial do negócio – os diretores do Yahoo! insistiam no valor de US$ 37 por ação, enquanto a Microsoft não oferecia mais que US$ 33 por cada uma. Diante de mais uma recusa por parte do Yahoo!, as ações caíram 15%, o que pode ter levado a companhia a rever tão severa posição.

É neste ponto que o namoro começa a ficar interessante – a Microsoft decidiu anunciar não estar mais interessada no negócio, enquanto o Yahoo! dizia que “a fusão das duas companhias seria um sucesso”. Enquanto isso, um dos mais importantes acionistas do Yahoo!, Carl Icahn, pressionava o conselho de diretores visando à conclusão das negociações com a MS. Assim, em 19 de maio a Microsoft enfim anunciou que voltou a negociar uma fusão com o Yahoo!

Quase cinco meses depois do início das negociações, a Microsoft vem a público dizer que ainda está interessada no negócio, mas com ressalvas – uma delas é a possível substituição, no conselho da companhia, do fundador Jerry Yang, mais xiita detrator da MS dentro do Yahoo!. Pode estar começando um novo capítulo da novela que movimentou o mercado pontocom no primeiro semestre de 2008.

Em que pé estamos agora? Dependendo do dia em que cada um ler esta coluna, o cenário pode ter mudado. Há algumas alternativas interessantes: 1) a Microsoft compra afinal o Yahoo! mas se sujeitando à presença de seus desafetos no corpo de diretores; 2) o dinheiro fala mais alto e a MS consegue, enfim, participar da escolha de novos diretores para a companhia; 3) o Yahoo! mantém a posição de que “há algo de podre na oferta da Microsoft” e se recusa a ser comprado, cenário que pode trazer prejuízos para os acionistas; 4) o Yahoo! procura outro parceiro para novas aventuras, sendo o Google o candidato número 1.

Seja como for, pode estar para nascer um gigante da internet, seja Microsoft-Yahoo! ou Yahoo!-Google ou Yahoo!-AOL. Quem ganha com isso? Num primeiro momento, apenas os tais acionistas. Para nós, por enquanto só nos resta acompanhar a novela, que ajuda a tirar o mundo da internet do marasmo.

Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.

» Para comentar esta matéria entre em contato com a Elis Monteiro.

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