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Privacidade e as mudanças no Orkut

Privacidade e as mudanças no Orkut - Coluna Elis Monteiro

Sou usuária do Orkut desde que ele ainda tinha pouco mais de cem inscritos, no comecinho da fase beta do produto mais famoso do Google no Brasil. Hoje, só nosso país já tem mais de 20 milhões de usuários da rede de relacionamento. Não é pouca gente, não. Assim, onde quer que você vá, sempre vai encontrar alguém — em especial adolescentes, já que é lá que eles se encontram — acessando a rede social do Google.

Sempre adorei o Orkut, mas chegou uma época em que eu morria de medo de colocar meus dados lá. Simplesmente porque eles estavam disponíveis para todo mundo. Tudo era aberto, não havia controle, qualquer um podia escrever o que quisesse para você, a qualquer momento. Pior: todo mundo podia ler tudo de todos, num atentado à privacidade poucas vezes visto antes.

Recentemente, o Facebook, concorrente direto do Google, fez seu debut na internet, trazendo um visual mais limpo, ferramentas mais intuitivas, uma comunidade de desenvolvedores à espreita para oferecer aplicativos úteis e, o mais importante de tudo, ferramentas de proteção à privacidade dos usuários que, felizmente, passaram a ser adotadas por todos os serviços virtuais de relacionamento.

Não foi muita surpresa, assim, quando a Microsoft anunciou a versão pública de seu serviço Windows Live Spaces, no qual a proteção aos dados dos usuários é a preocupação principal. No Live Spaces, um dos principais destaques é a organização das fotos.

É possível criar álbuns por assunto e definir até cinco níveis de permissão de acesso: só amigos podem ver álbuns de seus filhos, por exemplo. Esta é uma característica explorada também no Facebook e, no Orkut, até muito pouco tempo a falta deste elemento era o grande ponto negativo, a bola fora da Google. Não à toa, muitos usuários abandonaram a ferramenta de relacionamentos da Google Inc. em busca de maior privacidade.

Demorou, mas finalmente a Google decidiu acabar com os vazamentos dentro do Orkut. Sem alarde, a equipe de desenvolvimento da rede social implementou mudanças que fazem com que o Orkut volte a ser atraente. Agora, os usuários podem criar níveis de permissão de acesso em seus arquivos pessoais.

Eu, por exemplo, decidi que só os pertencentes à minha lista de contatos (formada em sua maioria por amigos e/ou conhecidos próximos) poderão abrir o meu álbum de fotos, checar as minhas mensagens no scrapbook, escrever recados nele e enviar mensagens para a minha caixa postal. Acho que a única coisa que um estranho pode fazer no meu perfil, hoje, é enviar um pedido de inclusão na lista de amigos. Mesmo assim, tenho filtrado o máximo possível.

Por que toda essa precaução? Primeiro, porque as redes sociais passaram a ser ambientes nos quais não se tem nenhum controle. Imaginem vocês a seguinte situação: estou eu viajando — a trabalho, a passeio, não importa — e um engraçadinho que não faz parte da minha lista de amigos resolve escrever um recadinho pornográfico ou de péssimo gosto no meu scrapbook. Como passarei dias fora, talvez sem acesso à internet, só poderei fazer a limpeza no mural de recados tempos depois.

Agora, imaginem vocês que, enquanto isso, os meus chefes decidem me deixar uma mensagem delicada ou até um recado de trabalho lá no mural. Dão de cara com o recadinho desaforado e pronto! Meu filme fica avariado, ou até mesmo queimado. Não posso me dar esse luxo. Assim, prefiro apostar que meus amigos não me deixarão este tipo de lembrança.

A minha implicância com as fotos é ainda maior. Se posto lá uma imagem dos meus sobrinhos, de qualquer membro da minha família ou até mesmo de amigos fica aquela sensação estranha de que qualquer um, seja lá de onde for, poderá ter acesso àquele momento especial, que na maioria das vezes não diz respeito a ninguém de fora.

Prefiro uma coisa mais reservada. Até para me sentir livre para postar o que quiser. Por isso, foi com grande surpresa (e até alegria) que recebi as melhorias do Orkut. Para aqueles que tencionam usar a rede de relacionamento para “a nobre arte da psicopatização” (como eu chamo a bisbilhotagem virtual, embora a expressão tenha sido criada por uma amiga minha), as mudanças podem ter representado um banho de água fria. Para quem não abre mão do direito de se comunicar com os amigos e os familiares em paz (e em particular), foi uma excelente bola dentro.

A questão é que é muito difícil manter uma vida particular que acabe não se misturando, a qualquer momento, com o universo “internético”. Assim, leva-se problemas pessoais para serem discutidos em comunidades públicas, nas quais os usuários dão pitacos, cobram explicações, se intrometem. Não me apetece ter uma legião de estranhos sabendo como anda a minha existência e meus afazeres. Assim, já tive minha fase de escritora de blog “íntimo”, ou diário pessoal, como os weblogs costumavam ser chamados.

Essa fase passou, e agradeço por isso. Naquela fase, todo mundo sabia o que eu fazia, o que eu pensava, aonde ia. O que acabava, em algum momento, me trazendo uma série de preocupações (até de invasão real de privacidade, o que aconteceu algumas vezes). Dia desses, decidi que meu blog não teria mais assuntos particulares, apenas opiniões minhas sobre assuntos. E sabem o que é mais incrível? As visitas escassearam.

O ser humano, definitivamente, gosta de espiar a vida alheia. E na internet isso fica ainda mais evidente...

Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.

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