Fui apresentada ao mundo dos computadores aos 18 anos de idade. Criada no interior, ainda não tinha conhecido as benesses (e as torturas) da máquina até aquele bendito dia de março de 1994. Primeiro dia de aula na faculdade. Foi num tour pelo campus da Universidade Federal Fluminense (UFF), que nem era muito sofisticado, que dei de cara com aquele ser estranho. A primeira coisa que me chamou a atenção, confesso, foi o monitor. Acostumada que estava com a televisão, estranhei aquelas cores todas que respondiam aos meus comandos. Na TV, eu era a receptora; no micro, eu era a produtora. A diferença era impressionante. A relação, a mais diferente possível.
Foi com essa primeira impressão que levei a minha vida informática: sempre tive paixão por telas. Sempre vi, nelas, a oportunidade de criar; de corrigir; transformar; de ter segundas chances e, até, de confessar meus segredos. Como se fosse uma amiga. Nem preciso dizer, confissão feita, o quanto mexe comigo a mudança drástica na relação que o ser humano tem, hoje, com os diferentes tipos de tela. O computador passou a ser apenas mais um dos diversos itens que compõem uma casa tecnológica. As telas se diversificaram, diminuíram de tamanho, ganharam mais resolução, ficaram mais sedutoras, mais finas. Viraram sonhos de consumo, itens de decoração, devaneios de arquitetos modernos.
Foi com os notebooks que a relação com a tela começou a se transformar. O LCD mudou tudo; as cores ficaram mais vivas; a convivência com a radiação, mais pacífica. As telas passaram a ser menos prejudiciais à saúde. E passamos a ficar mais próximos destas. Foram os portáteis os responsáveis pela segunda grande revolução na seara dos monitores; a primeira, claro, deu-se com a chegada das cores. Quem não se lembra das telas pretas com letras verdes? Convenhamos: o PC ganhou uma bela repaginada. Ficou mais interessante, menos máquina.
Os notebooks também trouxeram a praticidade de se transportar a tela própria. Carregamos dentro da bolsa e ela pesa cada vez menos. A última notícia que recebi foi o lançamento de um laptop de 800 gramas. Mas, aqui, não há limites. As telas ficarão sempre mais finas, mesmo que maiores.
A terceira grande revolução na minha relação (e na de qualquer consumidor) com as telas se deu com a chegada dos celulares. Os primeiros não passavam de aparelhos feios e pesados com telas pretas e feiosas. O aparelho conquistava pela praticidade de se carregar um número a tiracolo. Nada mais que isso. Não se falava ainda (e lá se vão mais de quinze anos) em SMS, MMS, WAP, Wi-Fi, internet móvel então...
A mudança nos visores foi o "killer aplication" (termo usado para designar um lançamento que faz deslanchar uma tecnologia) da telefonia móvel. O que antes só existia nos palmtops e handhelds chegou aos telefoninhos. A princípio pequenas e estreitas, as telas passaram a ganhar mais espaço. E mais cores. E a transformação nunca mais cessou. Hoje, busca-se telas maiores para a execução de funções cada vez mais complexas. Aplicativos de escritório (Word, Excel, PowerPoint) demandam melhor visualização, só possível com o alargamento das telas.
Melhor: as telas ganharam mais resolução; ficaram mais brilhantes e passaram a dominar as pranchetas dos designers. A grande questão passou a ser "como criar um telefone bonito, sedutor e com tela grande"? Parece que eles têm acertado na mão. Mesmo fabricantes pouco preocupadas com o design - como sempre foi o caso da Nokia, por exemplo - passaram a dar um valor inestimável à experiência de usabilidade. E, aqui, a tela é elemento fundamental.
E como esquecer o tamanho das telas das câmeras digitais? O que antes sequer existia (não se podia ver as fotos depois de clicá-las, lembram?) agora ganha status de luxo. As telinhas de LCD das maquininhas só crescem, mesmo estas ficando cada vez menores. Agora, já há no mercado modelos com LCDs de 3,5 polegadas. Até o ano passado, a maior parte das câmeras à venda trazia telas de no máximo 2 polegadas, sendo as mais comuns as de 1,5". O cenário mudou, e como. O consumidor, talvez acostumado com as telas dos celulares, passou a demandar visores maiores, quiçá buscando uma proximidade maior com o objeto fotografado. E faz mesmo todo sentido: a filosofia é de que quanto mais elementos couberem na tela, melhor será a imagem retratada.
Nos celulares, as telas cresceram para que o usuário possa se sentir confortável ao abrir um documento de texto; criar uma planinha eletrônica (sim, já é possível fazer isso) e, principalmente, tirar partido dos pequenos notáveis para navegar na rede mundial de computadores. Tal qual faria estivesse ele na frente do desktop de casa. Com a vantagem de estar em movimento.
Agora, fala-se na morte das telas. Que os monitores estariam condenados, vítimas da virtualização das imagens. Alguém aí já teve o prazer de ver um desktop com tela projetada, ou seja, sem monitor "físico"? Pois é. Eu já. E, apesar de tentada a me apaixonar por tamanha novidade, preciso confessar que esta velha amiga de guerra, a tela, ainda me faz uma falta danada. Seja ela grandona (a minha de casa é LCD de 17 polegadas, mas sonho com uma maior) ou pequena, sob medida para os celulares que nos acompanham no bolso e na bolsa.
Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.