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A nova biblioteca

A nova biblioteca - Coluna Elis Monteiro

Quando eu era criança e morava no interior, não tinha muitas opções quando precisava de algum livro para complementar as pesquisas escolares — dava uma passadinha na biblioteca e tentava me virar com as informações fornecidas pelas enciclopédias, tendo a insuperável Barsa como carro-chefe. Já na universidade, conheci as delícias do computador e as possibilidades educacionais que ele representava. Mais de uma década depois, admito que a velha enciclopédia ficou guardada, acumulando poeira, e a internet passou a ser a minha fonte principal de informações.

Bom ou ruim, errado ou certo, o fato é que a maioria de nós pode dizer a mesma coisa — quando surge uma dúvida de última hora, é ao Google que recorremos. No caso de pessoas mais escoladas no mundo Web, o ponto de partida (ou de chegada) pode ser a Wikipedia, a enciclopédia virtual criada por Jimmy Wales que está sempre se reinventando.

Com sete anos de vida, a Wikipedia soma mais de 9,3 milhões de artigos, a maior parte em inglês — são 352 mil em português, número que cresce diariamente, conforme os editores e colaboradores incluam novos tópicos. O mais interessante na Wikipedia é que se trata de um trabalho coletivo e livre onde os detentores do conhecimento podem compartilhá-lo com outros usuários sem cobrar nada por isso.

É claro que ainda paira a nuvem de dúvida a respeito da qualidade e a credibilidade do material publicado ali. Mas a Wikipedia tem a seu favor um imenso, gigantesco time de editores, espalhados mundo afora, que têm a função de controlar a qualidade do que é veiculado. Em qualquer lugar do mundo, internautas podem editar os artigos, num trabalho de melhoria que vai se intensificando conforme a enciclopédia fica mais conhecida.

É incontestável o poder que uma obra coletiva pública e irrestrita tem, mas vale considerar que a Wikipedia pode ter muitos “furos” — eu mesma já peguei alguns — e faltas. Não sei se seria viável compará-la com enciclopédias convencionais porque as duas são produtos completamente diversos. Fato é que a internet não deve ser a única fonte de pesquisa para os estudantes. Para estes — e para nós também — ainda não há nada que substitua a boa e velha biblioteca, aquele lugar romântico onde estão armazenados e disponíveis milhões de obras, de livros a mapas, passando por muitos outros tipos de documentos raros.

Tive o prazer de, recentemente, fazer uma visita à Biblioteca Nacional, um templo do conhecimento plantado em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro. A intenção foi fazer uma reportagem sobre uma nova modalidade de biblioteca que já faz o maior sucesso nos Estados Unidos e ameaça chegar aqui também: as mediatecas, bibliotecas dos tempos modernos onde os visitantes têm a chance de conviver com o melhor de dois mundos — o da biblioteca tradicional e uma amostra das tecnologias com as quais já convivemos aqui fora.

A idéia da reportagem surgiu a partir de uma pesquisa realizada nos EUA que divulgou um novo perfil de visitante de bibliotecas — mais de 60% dos americanos visitam os templos do saber para mexer nos computadores disponíveis lá. O dado é impressionante, principalmente se considerarmos que, na terra do Tio Sam, a penetração de computadores na sociedade é muito superior à do Brasil.

O dado da pesquisa, que à primeira vista é assustador — será que aquelas pessoas estão lá em busca da sabedoria propiciada pelos livros ou atrás de um entretenimento digital proporcionado pelas modernas ferramentas de comunicação? Não dá para ser tão radical e colocar as duas opções em pólos tão diversos. A comparação pode ser tomada, inclusive, como preconceito. Pois será que os computadores só servem como ferramenta de diversão e não como uma forma diferente... de ler?

É fato que passamos a maior parte dos nossos dias expostos a novas formas de leitura e o computador é apenas uma delas. Uma novela, um telejornal, um jornal de papel — e até uma bula de remédio, por que não? — são formas de aproximar o cidadão do saudável hábito da leitura. O livro só entra, nesta equação, como mais uma das opções. A mais antiga e tradicional (e saborosa, convenhamos), mas ele não é mais o senhor do conhecimento. Assim como a escola não é mais a única fonte de sabedoria e os professores perderam o posto de transmissores únicos da educação. A internet, assim como a TV, já fazem parte do ensino, com suas vantagens e desvantagens.

Diante das prateleiras lotadas de uma biblioteca, de páginas inteiras preenchidas de histórias, parei para pensar sobre o futuro disso tudo — viveremos nós completamente imersos na era digital, por quanto tempo teremos acesso às obras que moveram a intelectualidade de nossos pais e avós e bisavós? Será que um dia o livro vai mesmo deixar de existir, será substituído por uma nova mídia, um novo material? A discussão é antiga, mas é fato que por mais que a Humanidade crie e transforme, que os computadores fiquem mais rápidos e modernos, ainda não inventaram uma fórmula que substitua o prazer de pegar um livro novo, marcá-lo com as unhas, sentir o cheiro do papel guardado, e todas aquelas sensações que só quem passou a vida lendo sabe descrever.

Desta forma, seja sob a forma de ibooks (lembram-se dos tais “livros virtuais” que acabaram não emplacando?) ou obras convencionais que enfeitam nossas bibliotecas, a leitura sempre vai ser a mais básica e necessária fonte de conhecimento. Cabe aos educadores ajudarem os jovens e inexperientes leitores a separar o joio do trigo e sugar — e absorver — o melhor de cada obra.

Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.

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